Crédito no Brasil — o ciclo de 2025-26

v1.5 · 25/09/2026 · dados até jul/26 · 22 slides dashboard vivo (Streamlit) →

crédito no brasil · dados primários BCB · SGS + IF.data + SCR + BIS

Crédito.O ciclo de 2025-26: preço recorde, dois choques de safra — e a onda de baixas em curso. Tudo em dados primários, até julho/2026.
R$ 7,37 tricarteira total do SFN · +9,5% em 12m
5,81%inadimplência PF · recorde da série
28,9%renda comprometida · recorde
29,8%DSR privado (BIS) · 2º maior do mundo
📅 próxima nota do BCB: ~ter 29/09 · 08h30 · competência ago/26 IF.data 3T26: ~dez/26 BIS 2026-Q2: ~dez/26
1 · o sistema2 · a inadimplência recorde 3 · baixas e provisões4 · o tomador e o ciclo 5 · o Brasil no mundo

parte 1 · o sistema

O crédito não parou de crescer.

Crescimento do estoque de crédito (% em 12 meses)SGS 20539/20542/20593 · saldo total R$ 7.372 bi em jul/26-10%0%10%20%30%2012201420162018202020222024202612,8% direcionado9,5% total7,0% livre
leitura+9,5% em 12 meses, com R$ 7,37 tri de estoque — este não é um ciclo de escassez de crédito.É o denominador do índice de inadimplência: enquanto cresce ~10% a.a., dilui a taxa medida.

Fonte: BCB/SGS. Var. % em 12m sobre o saldo nominal.

parte 1 · o sistema

Originação em máxima histórica.

Concessões de crédito PF (R$ bi/mês)SGS 20633 · número real (cinza) e média móvel 12m010020030040050020122014201620182020202220242026406 real381 MM12
leituraR$ 406 bi concedidos a PF em jul/26 — topo da série.Safra nova entra limpa no índice; o custo dela aparece 12-24 meses depois.

Fonte: BCB/SGS. Concessões nominais mensais; MM12 pela regra da casa (nunca MM3).

parte 1 · o sistema

A Selic cede. A taxa ao tomador, quase nada.

O preço do crédito (% a.a.)SGS 20716/20715 (taxas médias das concessões) e Selic meta0%10%20%30%40%50%2012201420162018202020222024202637,4% taxa PF21,0% taxa PJ13,75% Selic
leituraTaxa PF em 37,4% a.a. com Selic a 13,75% — o spread é o personagem central deste deck.Corte de ~1 p.p. na Selic em dez meses; o estoque reprecifica com anos de defasagem.

Fonte: BCB/SGS. Taxas médias das novas concessões (recursos livres + direcionados).

parte 2 · a inadimplência recorde

Nunca esteve tão alta.

Inadimplência PF — SFN total (% da carteira, atraso >90d)SGS 21084 · série completa desde 20112%3%4%5%6%7%201220142016201820202022202420265,81% inad PF (SFN)pico 2012: 5,51recessão 2016: 4,372023: 4,35mínima pós-pandemia: 2,915,81 · recorde
leitura5,81% — acima do pico de 2012 e 1,4 p.p. acima da recessão de 2016, com desemprego baixo.É inadimplência de pleno emprego: o motor é o preço da dívida, não a renda.

Fonte: BCB/SGS 21084 (PF total: livre + direcionado). Metodologia atual começa em mar/2011.

parte 2 · a inadimplência recorde

O estoque quase dobrou em dois anos.

Estoque inadimplente PF em R$ bilhões (NPL = saldo × taxa)reconstrução própria sobre SGS · numerador do índice05010015020025030020122014201620182020202220242026270 NPL PF24m: R$ 142 biR$ 270 bi (+38% em 12m)
leituraR$ 270 bi em atraso: +38% em 12 meses, +90% em 24 — contra carteira crescendo 11%.Sobre a carteira de um ano atrás, o índice seria 6,44%: o crescimento do denominador dilui 0,6 p.p.

NPL_i = saldo_i × inadimplência_i, como o BCB constrói o numerador do índice (atraso >90d).

parte 2 · a inadimplência recorde

Sem agro e consignado novo, ainda não é 2012.

Total × core — inadimplência PF sem os dois choques (%)core = (NPL − rural − consignado privado) ÷ (saldo − rural − consignado privado)2%3%4%5%6%7%201220142016201820202022202420265,81% PF total5,27% corepico do core em 2012: 5,88
leituraO core está em 5,27% — maior nível desde 2012, abaixo do pico de 5,88%.O recorde do agregado = core pressionado + dois choques concentrados.

Reconstrução própria sobre SGS (npl.py do dashboard-bcb). Consignado privado ≠ consignado INSS/público.

parte 2 · a inadimplência recorde

Metade da alta vem de dois bolsos.

Quem explica os +1,15 p.p. em 12 meses (contribuição, p.p.)decomposição exata do Δ12m do índice PF · jul/26 · típico deste trecho do calendário (2012-24): -0,14 → excesso: +1,29Rural0,48 p.p.Consignado privado0,18 p.p.Cartão de crédito0,17 p.p.Pessoal não consignado0,15 p.p.Veículos0,11 p.p.Imobiliário0,05 p.p.Cheque especial0,01 p.p.Demais PF-0,01 p.p.
leituraRural (+0,48) e consignado privado (+0,18): 14% da carteira explicando ~45% da alta do estoque inadimplente.E a ponta avisa: no horizonte de 6 meses o consignado novo (+0,14) já supera o rural (+0,11) na liderança da piora.

Decomposição: Δinad = Σ [NPL_i(t)/S(t) − NPL_i(t−N)/S(t−N)] — a soma fecha o Δ do índice em cada horizonte. Atenção à sazonalidade nos horizontes curtos: o índice tem limpeza semestral (baixas de jun/dez derrubam ~0,1 p.p.) e o rural segue o calendário da safra — por isso cada corte traz o 'típico' do mesmo trecho do calendário; leia o excesso, não o número cru. Δ12m é imune por construção.

parte 2 · a inadimplência recorde

O campo quebrou primeiro: crise de solvência.

Inadimplência rural PF (%)SGS 21148 · 4,47% → 8,79% em 12m0%2%4%6%8%10%201620228,79% inad
NPL rural PF (R$ bi)+105% em 12m, carteira +4% (parada)010203040502016202249 NPL
leituraInadimplência dobrou em 12 meses com a carteira parada — os bancos já fecharam a torneira do agro.R$ 49 bi de NPL rural; ativo problemático no SCR a 10,3% diz que há mais atrás dos 90 dias.

Fonte: BCB/SGS 20609/21148. Contexto: renda agrícola em queda e onda de RJs de produtores 2024-26.

parte 2 · a inadimplência recorde

A safra nova: o book triplicou — e já azeda.

Saldo consignado privado (R$ bi)SGS 20576 · R$ 40 bi (dez/24) → R$ 118 bi025507510012520162022118 saldoCrédito do Trabalhador
Inadimplência (%)SGS 21116 · consignado privado · 6,17% → 10,03% em 12m2%4%6%8%10%12%2016202210,03% inad
leitura10% de inadimplência num book em que a maior parte dos contratos nem completou um ano.NPL +283% em 12m. O denominador verde disfarça: as coortes maduras rodam bem acima de 10%. A garantia quebra na rotatividade CLT.

Fonte: BCB/SGS. Programa Crédito do Trabalhador (eSocial) lançado em mar/2025; consignado INSS não incluído.

parte 2 · a inadimplência recorde

E a máquina cara de sempre segue moendo.

Cartão rotativo (%)SGS 21127 · hoje: 65,8%20%30%40%50%60%70%2012201620202024
Cheque especial (%)SGS 21113 · hoje: 16,3%7,5%10%12,5%15%17,5%20%2012201620202024
Pessoal não consignado (%)SGS 21114 · hoje: 10,7%4%6%8%10%12%2012201620202024
Cartão total (%)SGS 21129 · hoje: 9,5%2%4%6%8%10%2012201620202024
leituraRotativo: 65,9% do saldo em atraso >90d — recorde.O crédito caro do dia a dia sobe devagar, sem choque: pano de fundo estrutural.

Fonte: BCB/SGS (recursos livres PF). Quatro escalas diferentes — leia os níveis, não compare as alturas.

parte 2 · a inadimplência recorde

Não é a régua contábil: é fluxo.

Empréstimos PF no SCR: inadimplência × ativo problemático (%)SCR.data (Res. 4.966) · jan/25 em diante · gap ≈ estável8%10%12%14%16%18%2025202615,6% ativo problemático10,8% inadimplência
leituraO gap entre ativo problemático e inadimplência ficou estável — as duas métricas sobem juntas em 2026.A Res. 4.966 deslocou o nível em jan/25; a piora desde então é real. E 15,6% do book já é 'problema'.

Fonte: SCR.data/BCB, agregação própria dos arquivos abertos (bucket Empréstimos PF).

parte 3 · baixas e provisões

A onda de baixas chegou: R$ 77 bi num trimestre.

Baixas para prejuízo — sistema bancário (R$ bi por trimestre)reconstrução: baixas = despesa de PDD − Δ provisão · IF.data · * 1T25 indefinido (adoção da 4.966)02040608020152017201920212023202576,9*
leituraRecorde nominal da série — 34% acima do trimestre anterior. Era a peça anunciada pela despesa de PDD.Baixa remove do numerador: daqui em diante ela segura o índice medido — sem melhorar o fluxo.

Fonte: IF.data/BCB (conglomerados prudenciais), contas 78191/78192/78213 (2025+: 140205/140202/141840). Sistema total (PF+PJ).

parte 3 · baixas e provisões

Formação bruta de ~5% da carteira ao ano.

% da carteira (anualizado)custo do risco × limpeza do balanço2%3%4%5%6%2016202020244,9% despesa PDD4,8% baixas
Baixas ÷ NPL anterior (%)anualizado · quanto do estoque podre é limpo por ano80%90%100%110%120%130%201620202024107% baixas ÷ NPL
leituraMesmo baixando ~5% da carteira ao ano, o índice fez recorde — a formação de NPL cresceu ~40% num ano.O giro do estoque podre caiu de ~110% para ~88%/ano em 2025 — e a onda do 2T26 o devolveu a ~107%: a esteira reagiu.

Baixas ÷ NPL usa inadimplência SFN (SGS 21082) sobre a carteira IF.data — aproximação; tendência sólida, nível indicativo.

parte 3 · baixas e provisões

Provisão recorde — e a cobertura ainda cai.

Provisão em % da carteiraestoque de PDD/perda esperada · IF.data4%5%6%7%8%2016202020247,7% provisãoadoção 4.966
Cobertura (%)provisão ÷ NPL · colchão sobre o estoque em atraso150%200%250%300%201620202024168% cobertura
leitura7,7% da carteira provisionada, máxima da série — e a cobertura caiu de ~180% para ~170%.Nem provisionamento recorde acompanha a formação. Este é o elo que devolve o calote ao spread.

Fonte: IF.data/BCB. Salto de 1T25 na provisão = ajuste de adoção da Res. 4.966 (contra patrimônio).

parte 4 · o tomador e o ciclo

29% da renda já vai para a dívida.

Comprometimento de renda das famílias (% da renda mensal)SGS 29034 e decomposição oficial 29263/29264 · dado até jun/265%10%15%20%25%30%200720102013201620192022202528,9% serviço total17,7% amortização10,8% jurosrecorde: 28,9%
leituraRecorde da série — e a fatia de juros (10,8%) sozinha supera o serviço TOTAL das famílias americanas.Dois terços do serviço são amortização (principal rolável); o que não rola é o juro.

Fonte: BCB/SGS (metodologia própria do BCB; sai com ~2 meses de defasagem).

parte 4 · o tomador e o ciclo

O antecedente fez pico. A virada tem data provável.

O antecedente: atraso curto PF 15-90 dias × inadimplência (%)SGS 21005 e 21112 · o atraso curto lidera a inad em ~3 meses (r=0,69)3%4%5%6%7%8%201220142016201820202022202420267,79% inad livre (>90d)6,16% atraso 15-90dpico: 6,23 (jun)máx da série: 6,77
leituraAtraso curto: 6,23% em junho, 6,16% em julho — primeiro tique para baixo do ciclo.Se ago-set confirmarem, o pico do >90d fica para a virada 2026/27. É O indicador a vigiar dia 29/09.

Correlação máxima entre Δ12m do atraso e Δ12m da inad livre com defasagem de 3 meses (ex-2020/21).

parte 4 · o tomador e o ciclo

O ciclo correu mais rápido que o modelo.

Projeção × realizado — inadimplência PF ex-agro (%)modelo de projeções diretas (G22): drivers macro + dummy 4.966 · banda de 80%3,5%4%4,5%5%5,5%2022202320242025202620275,40% realizado (ex-agro)4,72% projeção (safra 2026-06)
leitura10 de 16 verificações fora da banda, quase todas para cima — julho: projetado 4,94, realizado 5,40.O que os drivers macro não veem é composição de safra: Crédito do Trabalhador e agro.

Safras registradas uma única vez por vintage (projecoes_hist.csv, commitado) — teste honesto, fora da amostra.

parte 5 · o brasil no mundo

O 2º maior serviço de dívida do planeta.

Serviço da dívida do setor privado (% da renda) — 2026-Q1DSR do BIS · mesma fórmula em 32 países · setor privado não financeiroHong Kong34,3%Brasil29,8%Noruega28,3%Holanda26,1%Turquia25,8%Canadá25,5%Suécia23,3%Dinamarca23,1%Rússia20,4%Austrália20,3%Suíça20,0%França19,9%Coreia19,3%China19,1%Finlândia17,8%Bélgica16,6%Japão15,5%Malásia15,5%EUA13,8%Tailândia13,4%Reino Unido12,9%Índia12,5%Alemanha12,2%Portugal12,2%Espanha11,7%Hungria11,5%Itália9,2%Tchéquia9,0%Áfr. do Sul8,3%Polônia6,3%México5,3%Indonésia4,2%
leitura29,8% da renda — atrás só de Hong Kong, à frente de Noruega, Canadá e Suécia.E subindo: 29,3% no 4T25 → 29,8% no 1T26.

Fonte: BIS Debt Service Ratios (API SDMX). Brasil não entra no recorte só-famílias do BIS; o privado total entra.

parte 5 · o brasil no mundo

Deve pouco. Paga muito.

Deve pouco, paga muito — dívida × serviçovertical: serviço da dívida (% da renda) · cada ponto é um país · BIS, último trimestre disponível0102030400100200300400crédito ao setor privado (% do PIB)Hong KongBrasilNoruegaHolandaTurquiaCanadáSuéciaAustráliaSuíçaCoreiaJapãoEUAÍndiaAlemanhaMéxico
leituraDívida entre as menores do mundo pagando serviço de topo: o peso é PREÇO (juros + prazo), não quantidade.Austrália e Holanda devem 2x mais e carregam mais barato. A razão custo/dívida do Brasil é ~3x a dos avançados.

Fonte: BIS (WS_TC, crédito total ao setor privado não financeiro; WS_DSR). Famílias BR: dívida ~38% do PIB.

parte 5 · o brasil no mundo

O spread não é (só) lucro: é calote.

De que é feito o custo do crédito (% do ICC) — BCB, 2023decomposição contábil do BCB (Relatório de Economia Bancária)Custo de captação37,3%Inadimplência22,3%Despesas administrativas15,0%Tributos diretos/indiretos + FGC12,8%Margem financeira (resíduo/lucro)12,5%
leituraTirando a captação, a inadimplência é a maior fatia do custo — maior que o lucro do banco.O loop do deck inteiro: calote alto → spread alto → serviço mais caro → mais calote.

Fonte: BCB/REB. Margem financeira é resíduo (inclui lucro e custo de capital); fatias mudam pouco entre edições.

síntese · as 5 teses

O que os dados sustentam.

1É piora real, não mix. Três shift-shares (renda, produto, banco) atribuem ~90-110% da alta à deterioração dentro dos grupos.
2Dois choques + um core caro. Agro (solvência) e consignado novo (safra) sobre um core em 5,3% — alto, mas ainda abaixo de 2012.
3O índice subestima o fluxo. Carteira crescendo dilui; baixas de R$ 77 bi/tri removem. Formação bruta ≈ 5% da carteira/ano.
4Deve pouco, paga muito. Dívida ~38% do PIB, serviço 2º maior do mundo (29,8%). O problema é preço, não quantidade.
5Calote → spread → calote. Inadimplência é a maior fatia do spread. Provisão recorde com cobertura em queda mantém o loop armado.
leituraPreço recorde, dois choques de safra e a onda de baixas em curso — o pico do índice fica para a virada 2026/27, se o antecedente confirmar.Próxima nota do BCB: ~ter 29/09 · 08h30 (competência ago/26). Dashboard vivo: dashboard-bcb · v1.5 · 25/09/2026