Cyrela (CYRE3) — Update

v6.17 · 14/09/2026 · dados até 2T26

atualização de tese · setembro 2026

CYRE3Cyrela Brazil Realty · Incorporação em dois motores: médio-alto padrão e MCMV
1 · o negócio 2 · médio e alto padrão 3 · MCMV 4 · o funding 5 · a companhia

TO-DO · SLIDE DE TRABALHO · REMOVER AO FIM

O que falta para fechar o trabalho.

#itemstatusonde
1Fechar a tese numa página
o que o mercado precifica, no que discordamos, o que nos daria razão ou nos derrubaria, o que observar por trimestre
em andamentoslide seguinte (WIP)
2Fase Resultados e Valuation
modelo no estilo JGP: drivers por segmento, margem por safra com INCC defasado, landbank como capex, CashMe e participações à parte; valor em três cenários e sensibilidade ao juro de 10 anos
em andamentoCYREMod_2T26.xlsx
3Perguntas ao RI e reunião
31 perguntas + 2 novas (prazo terreno → lançamento; custo do estoque no 4T25 já é a 31); cinco delas mudam a tese
em andamentocyrela/perguntas_ri.md
4Pares com fonte primária
Lavvi, EZTEC, Even e MDNE nas planilhas de RI, mesma base da Cyrela: ROE, margem, alavancagem, P/B
pendente
5Versão curta do deck
12-15 slides, um por argumento; os 50 viram anexo navegável
pendentedepois do valuation
6Rotina de atualização trimestral
um comando: extrai fontes → JSONs → gráficos → render de layout → publica; pronto para o 3T26 (nov/26)
pendentescripts existentes
regra

Este slide e os marcados como WIP (tese em uma página, sensibilidade da LCI) não fazem parte da apresentação: são removidos quando o item correspondente fecha. Ordem combinada: 1 e 3 primeiro, 2 e 4 em seguida, 5 quando houver valuation, 6 antes de novembro. Nenhum slide novo de conteúdo até o item 2 existir.

WIP · ITEM 1 · RASCUNHO DA TESE

A tese em uma página —
o que o preço assume, e no que discordamos.

O que o mercado precifica
  • P/B de 1,0× com as PN na base (0,84× só ON) e ~5× lucro; o consenso (Itaú BBA, out/25) usa ROE estabilizado de 19,5%, Vivaz a 33%+ e caixa livre de R$ 1,2 bi em 2027 — Gordon a 1,2× TBV.
  • A ação é tratada como título de juro longo: −10% a cada +100 bp no juro de 10 anos, o dobro do Ibovespa — e hoje está descolada para cima do título (140 vs 88 desde 2010).
  • O prêmio de marca no alto padrão (88% vendido em 6-12 meses contra 63% do luxo de SP) e a Vivaz como segunda perna.
No que discordamos
  • O ROE de 20% é margem no topo da década × giro medíocre × alavancagem crescente. Com a margem mediana de vinte anos (13,5%) e o giro atual, o ROE é ~13% — o steady-state de 12,8% do Empresa Nova. O mercado capitaliza o pico.
  • Os 36% da Vivaz são, em parte, colchão de INCC das safras 2023-24 (hipótese, teste pendente no RI). Com INCC a 6-7% desde o fim de 2024, a safra 2024-25 chega à margem em 2027 abaixo disso.
  • Não há dinheiro novo no funding: a régua efetiva nasce em ~65%, a poupança financia cada crédito só pelo prazo do fator, e o SFH marginal captado a LCI já rende −14% para o banco. O racionamento do MAP é por quantidade; LCI tributada aprofunda.
  • O MAP entra em 2027 com 15,5 meses de estoque, VSO no pior nível desde a pandemia e lançamentos de luxo em SP +136% em um ano. O retorno recente da ação foi distribuição, não preço (2020-26: 1,44× total, 1,02× preço).
O que nos daria razão — e o que nos derrubaria
  • Razão: margem da Vivaz recuando para 30-32% em 2027; VSO do AP abaixo de 12% com estoque acima de 15 meses; custo a incorrer do estoque não explicado pelo RI; juros apropriados ao custo seguindo acima de R$ 70 mi/tri.
  • Derrubada: Vivaz sustentando 35%+ com INCC alto (produtividade real, não colchão); VSO do AP de volta a 15%+ com preço; RI mostrando que o salto do 4T25 é perímetro; juro de 10 anos a 11-12%, que pela sensibilidade histórica vale +25-35% na ação independentemente dos fundamentos.
  • O risco assimétrico é o juro: a tese operacional pode estar certa e a ação subir assim mesmo. Por isso o valuation precisa de cenário de juro explícito.
O que observar, trimestre a trimestre
  • Margem bruta da Vivaz e margem REF por safra · VSO 12m do alto padrão e estoque em meses · custo a incorrer do estoque ÷ recebível (pergunta 31) · juros apropriados ao custo · landbank em anos de lançamento e terrenos a pagar.
  • Fora da companhia: captação líquida da poupança e custo da LCI · juro de 10 anos · decisão das PN especiais e destino da torre Oscar Freire.
  • Posição: em aberto até o item 2 (valuation) dar preço em três cenários de juro e margem.
status

Rascunho para discussão: os quatro blocos saem dos slides do deck (parte 5 e 6, funding e Geoimóvel) e das respostas que faltam do RI (perguntas 2, 16, 17, 31 e 32). Vira slide definitivo — e deixa de ser vermelho — quando o valuation fechar a posição.

parte 1 · o negócio

As duas rodas da incorporação.

Terreno compra ou permuta Aprovação ~1–2 anos · estimativa Lançamento vende na planta, devagar Obra ~26 meses · começa 6–12 m após o lançamentocliente paga 30% até as chaves Entrega chaves · habite-se Repasse no fim banco paga os 70% Médio e alto padrão ~5 anos 1–2 anos até lançar + ~40 m até as chaves · caixa no fimR$ 11,5 bi lançados em 12m · 68% do total Terreno eixo, perto do metrô Aprovação trilha HIS · meses, não anos Lançamento vende rápido · fila do programa Repasse na planta associativo · CEF assume o cliente Obra ~2 anos · alvenaria estruturalencurtou 6 meses desde 2015-18 Entrega chaves · o caixa já veio MCMV (Vivaz) ~3–4 anos lançamento → chaves ~32 meses · caixa entra na obraR$ 5,4 bi lançados em 12m · 32% do total calendário 20% mais curto no MCMV (32 vs 40 meses do lançamento às chaves, mediana ponderadade 742 entregas 2009-26, anexo dos releases); o MAP não encurtou em dez anosobra ~26 meses e início 6–12 meses após o lançamento com 30% vendido: FR 2026, item 1.4 · "quatro anosdo lançamento até a entrega": CFO, call 1T26 · esquema de caixa: apresentação institucional 2026
Do lançamento às chaves, por anomeses · mediana ponderada por VGV · 742 entregas 2009-26, anexo dos releases2009-12: só o totalsegmento inferido pelo produto do anexo (MAP = alto padrão e médio)24 m30 m36 m42 m48 m2009201120132015201720192021202320252026MAP · 39 meses (2026, n=12)MCMV · 34 meses (2025, n=21)todos · 33 meses (2026, n=19)
método construtivo

A obra Vivaz roda alvenaria estrutural (~24 meses; o gargalo de mão de obra é o bloqueiro, citado no call do 4T23). MRV e Direcional usam parede de concreto com forma de alumínio e giram a obra mais rápido (prazo não localizado em fonte primária) — a roda deles é ainda mais rápida que a desenhada acima. A Cury segue em alvenaria estrutural (FAQ do RI); a imprensa fala em forma de alumínio a partir de 2027.

parte 1 · o negócio

A mesma indústria, dois contratos com o macro.

Médio e alto padrão
Motor da demanda
Renda privada: affordability e salário real.
Ciclo que manda
PIB e juros. A Selic define o financiamento, o custo de carregar o balanço e o humor do investidor.
Inflação
Repassa: o recebível corrige INCC durante a obra; na carteira própria da Cyrela (financiamento direto), IPCA/IGP-M + 12% a.a. depois das chaves — quem repassa ao banco paga a taxa de mercado.
Capital alocado
Pesado. Terreno caro (a permuta mitiga) e obra financiada no balanço — pico de exposição ~42% do VGV no modelo estilizado do slide do caixa.
Risco de distrato
Alto na entrega: se o preço caiu, o comprador devolve a unidade pronta — e o estoque volta. A Lei do Distrato (13.786/2018) mudou a conta — retenção de até 50% do pago com patrimônio de afetação —, mas nunca foi testada num ciclo de queda de preço como o de 2015-17.
MCMV (Vivaz)
Motor da demanda
Governo: subsídio, tetos por faixa e funding FGTS — a fila anda porque o programa existe.
Ciclo que manda
O orçamento do programa, não a Selic — a taxa do FGTS é administrada, quase imune ao ciclo.
Inflação
Espreme: o custo corre INCC, mas a parcela associativa não tem correção e o preço tem teto.
Capital alocado
Leve. Terreno menor e a CEF desembolsa por medição durante a obra — o balanço quase não entra.
Risco de distrato
Baixo: no associativo, pós-repasse não há distrato — o risco vira inadimplência do mutuário, e é da CEF, não da incorporadora.

parte 1 · o negócio

Como o cliente compra —
e quem carrega o crédito.

Médio e alto padrão
Quem financia
Bancos, via SFH (funding SBPE) e SFI (carteira livre)no repasse, na entrega.
Entrada e LTV
Banco financia ~65%: entrada de ~35% + custas. Sem poupança prévia, não há compra.
Análise de crédito
Comprometimento de renda ~30% (regra de bolso dos bancos), feita na entrega — aprovado na planta não é aprovado nas chaves.
Taxa
~14% a.a. — dobrou desde 2021 e reprecifica com a Selic.
MCMV (Vivaz)
Quem financia
CEF, com funding FGTS — crédito associativo, contratado na planta.
Entrada e LTV
Banco financia ~74%; subsídio de até R$ 55 mil + saque do FGTS abatem a entrada e ajudam a enquadrar o LTV. O que ainda faltar, a incorporadora eventualmente financia por fora (pró-soluto) — a poupança exigida é mínima.
Análise de crédito
Feita na assinatura, pela CEF — renda formal/informal enquadrada na faixa; o risco pós-repasse é do banco.
Taxa
4% a 8,2% a.a. conforme a renda — administrada, quase imune à Selic.
A taxa do crédito, nas três portas% a.a. · taxas de contratação PF · BCB (IMOB)5%10%15%201520172019202120232025mínima: 7,1% · 04/21o FGTS não acompanhou a subidaSFI · 14,5%SFH · 14,0%FGTS · 9,1%
Quanto o banco financia — e quanta entrada exigeLTV · % do valor do imóvel · BCB50%60%70%80%20132015201720192021202320252019: 70% · o pico da série foi 74% em mai/14FGTS · 74%mercado · 65% = entrada de 35%
o LTV é vivo — e decide o fim do jogo

O LTV que importa é o do repasse, na entrega: saldo a financiar ÷ avaliação do banco. Durante a obra ele cai pelos dois lados — o cliente amortiza (paga ~30%) e o imóvel valoriza. Quem compra na planta trava o preço baixo, amortiza 3 anos e chega às chaves devendo 70 sobre um bem que foi a 118 — LTV de ~59%, folga total. Quem compra tarde paga a tabela já valorizada, amortiza pouco e não pega valorização: chega ao banco com LTV no limite — a venda tardia (e a do estoque pronto) é a mais dependente da avaliação. No stress, ele desequilibra de vez: avaliação 15% abaixo do contrato → LTV salta a ~82%, acima da régua do banco → o cliente precisa de entrada extra que não tem. Daí saem os dois finais conhecidos: distrato (2015–17) ou a incorporadora virando banco — pró-soluto e tabela direta para salvar a venda, inchando a carteira própria (os 12% + IGP-M do nosso performado).

a fronteira SFH × SFI

SFH (funding poupança/FGTS): imóvel avaliado até o teto, custo máximo de 12% a.a. + TR e direito a usar o FGTS. Acima do teto ou fora das condições, o crédito é SFI (Lei 9.514/97): taxa livre, sem tetos. O teto já mudou cinco vezes:

até 2013 · R$ 500 mil 2013 · 750/650 mil 2016 · 950/800 mil 2017 · 1,5 mi (temporário) jul/2018 · 1,5 mi nacional (Res. 4.676) out/2025 · R$ 2,25 mi (Res. 5.255)
O teto do SFH contra o preço do estoque CyrelaR$ mi por unidade em estoque · VGV ÷ unidadesplanilha do RI1,02,03,020112013201520172019202120232025o 1,5 mi de 2017 durou um ano — recuou e só voltou em jul/18teto · 2,25 mi (out/25)alto padrão · 2,25 mimédio · 0,83 mi2024–26: o luxo entra no estoque e o tíquete triplica
o que o teto novo muda

Com o teto em R$ 2,25 mi, o SFH voltou a alcançar a média do estoque da Cyrela — o tíquete médio do alto padrão (R$ 2,25 mi) encosta no teto, mas a média esconde a distribuição: parte relevante fica acima. Mas hoje isso é forma, não substância: com SFH a 14,0% e SFI a 14,5%, a diferença prática entre as portas é quase nula. O enquadramento só volta a valer dinheiro quando a poupança voltar a subsidiar — ou seja, quando a Selic ceder.

parte 1 · o negócio

Um vende na largada.
O outro, no relógio.

Quando o projeto vende% do VGV acumulado25%50%75%100%12m24m36m48m60mMCMV · ~25% na largadaesgota no mês 30MAP · 33-45% na largadarepasse nas chaves · mês 60compra do terreno · mês 0 (igual para os dois)lançamento · mês 9lançamento · mês 24

parte 1 · o negócio

O caixa do MAP passa anos debaixo d'água.
O do MCMV quase não afunda.

Caixa do projeto — médio e alto padrão12m24m36m48m60mlançamento · mês 24chaves · mês 60pico: ~42% do VGVmargem só no fim
Caixa do projeto — MCMV (Vivaz)12m24m36m48m60mlançamento · mês 9chaves · mês 33pico: ~15% · meio da obrachaves 27 meses antes do MAP
Premissas · médio e alto padrão
Peso do terreno
18% do VGV.
Margem bruta
~33%.
VSO
33-45% na largada · ~8%/tri depois, liquida nas chaves — na prática a Cyrela vende 88% em 6-12 meses (slide da vantagem de venda), mas o repasse só chega nas chaves.
Fluxo de pagamento
30% na obra · 70% no repasse, nas chaves.
Tracejada
Terreno 100% em permuta.
Premissas · MCMV (Vivaz)
Peso do terreno
10% do VGV.
Margem bruta
~32% (abaixo dos 36% reportados no 2T26, por conservadorismo).
VSO
~25% na largada · relógio de ~30%/tri, esgota no mês 30.
Fluxo de pagamento
90% na obra (CEF, por medição sobre o vendido) · 10% na entrega.
Tracejada
Terreno 100% em permuta.

parte 1 · o negócio

Os riscos — um mapa para cada roda.

Médio e alto padrão
Ciclo longo × juro curto
O projeto leva 5–7 anos; o funding reprecifica com a Selic — dívida de R$ 8,7 bi (2T26; R$ 2,8 bi são da CashMe).
INCC na obra, preço na planta
O orçamento corre ~3 anos de INCC; repassar custo depende do mercado deixar.
Distrato na entrega
O comprador devolve a unidade se o preço caiu. A regra mudou em 2018 — retenção de até 50% do pago — e o problema hoje é bem menor que em 2015–17.
Estoque pronto custa caro
Carrego de IPTU e condomínio e risco de impairment enquanto espera comprador.
Terreno ilíquido
O landbank consome capital por anos e não marca a mercado — e o zoneamento de SP virou risco judicial (TJ-SP, ADI 2257600-87.2025, 26/08/26).
Demanda cíclica
PIB e juros — com spread recorde do aluguel, o comprador racional espera.
Tributação do funding isento
O governo quer rever a isenção de LCI/CRI/LIG em 2026. Encareceria o substituto da poupança (LCI já é ~R$ 544 bi (B3, jun/26)) e o CRI — onde a companhia e a CashMe se financiam: repasse SFI, dívida corporativa e funding da carteira sobem juntos.
MCMV (Vivaz)
Risco de programa
Mudança de critérios, subsídios ou funding FGTS mexe em demanda, financiamento e velocidade de vendas. Binário e fora do controle. O mitigante: lançado em 2009, o programa atravessou governos de esquerda e direita (virou "Casa Verde e Amarela" e voltou) — extinção nunca veio. De facto, programa de Estado; os parâmetros é que são de governo.
Teto × INCC
O custo corre todo mês; o teto só muda por portaria — e a maior parte das vendas do segmento sai no teto (a confirmar com o RI).
Balcão único: CEF
Enquadramento, medição e repasse dependem de um único operador — que muda processos e alonga prazos de repasse sem aviso. E o valor é travado no repasse, sem correção.
Cliente reprovado na entrega
No associativo, o comprador pode não ter o crédito aprovado no repasse — e não ter recursos próprios para quitar.
Mão de obra da alvenaria
O gargalo é o bloqueiro — escassez citada nos calls de 3T23, 4T23 e 3T25, com todos os canteiros do programa abertos juntos.
Competição correndo pro segmento
Oferta MCMV do mercado +40% em dois anos (lançamentos +59%) — a fila é grande, mas não é infinita.
comuns às duas rodas

Contingências judiciais e partes relacionadas controlador × minoritário. E o risco de ciclo aquecido: escassez de insumos e mão de obra sobe o custo E atrasa a obra — no boom de 2011–12, os atrasos generalizados custaram margem, multas e anos de reestruturação ao setor, Cyrela incluída. E o risco que ninguém no setor declara: a judicialização do zoneamento de São Paulo.

parte 1 · o negócio

O INCC — a régua que corrige
o cliente durante a obra.

O INCC e o custo, desde 2008jan/2008 = 100 · INCC-M (FGV) · SINAPI (IBGE/CEF) · IPCA150200250300350boom: INCC 25% · SINAPI 12%materiais: SINAPI 45% · INCC 36%hoje: INCC 14% · SINAPI 10%200920122015201820212024INCC-M · 355SINAPI · 305 (jun/25)IPCA · 280no boom o INCC correu acima do custo medido; ficou para trás uma vez — no choque de materiais de 2020-22 — e hoje corre acima de novo
Revisões de orçamento reportadasR$ mi · economias e estouros de orçamento · releases via IPE/CVM2011-14: nenhuma revisão quantificadadesde 1T18 a linha some−21−238+58+9201020122014201620184T10: +R$ 367 mi de custo orçado (3,7%), 70% em obras terceirizadas2T15–4T17: R$ 292 mi de economias
a régua, em três atos

A régua velha (2009-23): três plantas-tipo de 2009 e mão de obra medida só pelo dissídio, não pelo salário de mercado. Os dois descolamentos: no boom, o INCC correu acima do SINAPI — a inflação que ele não viu foi a do pedreiro de mercado e da empreiteira terceirizada, e o estouro foi de execução: 70% das revisões da Cyrela em 2010 vieram de obras terceirizadas (R$ 534 mi de custo orçado, absorvidos até 2011); em 2020-22 foi a vez dos materiais: SINAPI +45% (e +61% no componente materiais do INCC) contra +36% do índice cheio, 9 p.p. atrás. A régua nova (jul/2023): primeira revisão em 14 anos — 79 subitens, três padrões, salário cotado no mercado, pesos 55/39/6 (materiais/mão de obra/serviços). Desde então o INCC corre acima do custo medido: a régua que corrige o cliente virou vento a favor de quem tem recebível indexado — e a economia de obra que a companhia quantificou em 2015-17 (R$ 292 mi) hoje não é mais divulgada — não sabemos se há economia ou estouro (pergunta 3 ao RI).

parte 1 · o negócio

De onde vem o dinheiro —
três pontas por roda.

Médio e alto padrão
Funding da obra
Plano empresário SFH a TR+9,01% (média 2T26), lastreado numa poupança que encolhe há dez anos.
Funding da companhia
CRI e debêntures a CDI+/IPCA+ — dívida corporativa de R$ 5,2 bi (CRI e debêntures a CDI+/IPCA+) reprecificando com o mercado — o SFH, a TR + 9%, não.
Funding do cliente
SFH/SFI no repasse, a ~14% — o elo final também sobe com a Selic.
Fragilidade
As três pontas são de mercado: quando a Selic sobe, obra, dívida e cliente encarecem juntos.
MCMV (Vivaz)
Funding da obra
O próprio programa: apoio à produção da CEF, desembolso por medição sobre o vendido.
Funding da companhia
Quase dispensável — pico de caixa de ~15% do VGV; o balanço mal entra.
Funding do cliente
FGTS a taxa administrada (~9%) + subsídio — imune ao ciclo da Selic.
Fragilidade
Um único fundo parafiscal: orçamento e regras do FGTS decididos por conselho, não por mercado.
a assimetria que define a tese

A roda MAP toma juro de mercado três vezes — na obra, na dívida e no cliente. A roda MCMV bebe de um fundo parafiscal nas três pontas — enquanto o FGTS tiver caixa. As partes 3 (FGTS) e 4 (SBPE) mostram as duas fontes por dentro.

parte 1 · o negócio

SBPE — usos e fontes
do funding do MAP.

Fontes
Depósitos de poupança
Saldo de R$ 1,03 tri (jul/26) — mas 17% menor em termos reais que em jan/2015: captação líquida negativa em todos os anos da década, exceto 2020.
O custo do depósito
TR + 6,17% a.a. com Selic acima de 8,5% — remuneração tabelada, muito abaixo do CDI: é daí que nasce o subsídio do SFH.
Quem decide ficar
O poupador — e a 14-15% de Selic, ele sai: cada real que migra para CDB/LCI encarece o funding do sistema.
Usos — a régua do BCB
65% · direcionamento
Obrigatório em crédito imobiliário, a maior parte em operações SFH — plano empresário e repasse (Res. 4.676).
20% · compulsório
Recolhido ao Banco Central.
15% · livre
O banco aplica onde quiser.
Hoje
99% do exigível aplicado — a régua encostou: não há folga para crescer sem funding novo.
O movimento implícito de funding — 12 meses até mai/26R$ bi · BCB (SBPE, IMOB, TR) · juros creditados ≈ saldo médio × (TR 2,0% + 6,17%) · saques líquidos = Δsaldo − jurosa poupança em 12 mesesjuros creditados (TR+6,17%)+63saques líquidos−59= saldo+4a carteira SFH em 12 mesesoriginação+92amortização−65= carteira+28quem fechou os R$ 24 bi que faltaramcompulsório liberado (out/25, one-off)+37LCI · variação anualizada (financia SFH e SFI)+90
O que o poupador deixa na mesa: poupança menos CDI líquidop.p. ao ano · rendimento da poupança (BCB, observado até 2019; regra TR+0,5%/70% Selic depois) − CDI líquido de IR de 15% (SGS 4391)-8-4+0+4-10,0-1,0-4,0-3,919962000200420082012201620202024
Trinta anos de poupança: o que o brasileiro pôs e tirou, contra o PIBbarras: captação líquida anual do SBPE em % do PIB (BCB 1996-2019, base JGP; 2020-26 derivada, tracejado; 2026 parcial)linha: PIB real, variação anual (IBGE/SGS 7326)-4%-2%+0%+2%+4%+6%+1.0% · R$ +54 bi-0.8% · R$ -50 bi-0.5% · R$ -67 biPIB real · +2,3% (2025)2010: PIB +7,5%, captação +0,8% do PIB (pico: 2013, +1,0%)19962000200420082012201620202024a poupança só recebe dinheiro novo quando renda cresce E o CDI não humilha: 2007-14 (PIB forte, gap pequeno) foi a exceção,e 2020 (auxílio emergencial, Selic 2%) a outra; hoje o PIB cresce, mas o gap de 4 p.p. leva 0,5% do PIB por ano
a transição

O movimento implícito: a carteira SFH cresceu R$ 28 bi no ano com a poupança parada (+4) — os juros creditados (+63) só repõem o que sai em saques (−59). Quem fechou a conta foi o compulsório liberado (one-off) e a LCI a CDI. O BCB mudou a régua em out/25 (Res. CMN 5.255): a poupança passa a financiar cada crédito novo só pelo prazo do fator (5 a 7 anos) e a carteira roda depois em LCI/LIG; o compulsório de 20% fica, com dedução crescente para crédito novo (5% desde out/25, +1,5 p.p./ano de 2027). O SFH de amanhã se financia cada vez mais a LCI — o subsídio implícito da TR encolhe aos poucos, não acaba por decreto.

parte 1 · o negócio

Os ingredientes do crédito:
preço alto, perda mínima.

A perda quase não existe% da carteira em atraso · BCB1%2%3%201520172019202120232025SFI · 0,9%SFH · 1,0%FGTS · 2,1%alienação fiduciária funciona: o banco retoma o imóvel — a perda esperada é fração do spread
a matéria-prima do ROE

Taxas de 9–14,5% (slide 4) sobre inadimplência de 1–2% — o crédito imobiliário é o um dos menores riscos do varejo bancário (inadimplência de 0,9-2,1% com LTV médio de 65%). Com esses ingredientes, a conta do banco no próximo slide deveria fechar fácil. E fecha — numa porta só.

parte 1 · o negócio

A conta do banco:
emprestar SFH × SFI.

Operação SFH · funding cativo
Capta
Poupança a TR + 6,17% ≈ 8,3% a.a. (TR 2,0%) — o depositante entrega funding 6 p.p. abaixo do CDI.
Empresta
No teto: 12% + TR ≈ 14,0% (é a taxa média observada).
Margem bruta
~5,7 p.p. — menos PDD, originação e capital: sobra margem confortável…
…mas contra o CDI
Emprestar a 14% com Selic de 14-15% só faz sentido com funding cativo: quem perde 6 p.p. para o CDI é o poupador, não o banco. O banco só empresta porque o funding é cativo e a régua obriga.
Operação SFI · funding de mercado
Capta
LCI a ~95–100% do CDI ≈ 14,5% — mesmo isenta de IR para o investidor, a escassez de lastro levou a captação para perto do CDI cheio.
Empresta
Taxa livre: 14,5%+ (média atual) a CDI+2 nos plano-empresário de luxo.
Margem bruta
~0 a 1,5 p.p. — no osso: a ponta mal cobre o funding, e vive de tarifas e relacionamento.
A consequência
Sem folga de funding barato, o crédito novo nasce caro — o racionamento do MAP é matemática bancária, não má vontade.
O ROE do banco por porta — safra do mês, funding médiosafra do mês · capital regulatório · pós-impostos-20%0%20%40%201520172019202120232025SFH · 41%SFI · banda LCI 90–100% CDISFH: retorno alto e crescente — o que falta é funding, não apetitepremissas ilustrativas: PIS/Cofins 4,65% e cost-to-income 50% (padrão varejo; hipoteca opera com opex menor) sobre a margem financeira· LGD 30% · inadimplência observada por modalidade (BCB) · capital = FPR 35% × 8% (sem buffers; com ACP o mínimo é ~10,5-11,5%) · IR/CS 45% — os dois vieses têm sinais opostos
a conta que fecha a parte 1

O spread do SFH existe porque o poupador aceita TR+6,17%. Cada saque troca funding de 8,6% por funding de ~14,5% — a margem do banco no SFH derrete um saque por vez, e o teto de 12%+TR não deixa repassar. Resultado: cota menor, entrada maior, fila mais lenta — exatamente o que o comprador do MAP encontra na agência.

parte 1 · o negócio · WIP · VERIFICAR

Se a LCI perder a isenção,
quem paga: o banco, o comprador ou a fila?

~R$ 544 bi (B3, jun/26)estoque de LCI · ~20% do funding imobiliário
+0,7 a +1,5 p.p.custo do funding LCI com IR de 5% a 17,5%
−14% → −28%ROE marginal de um SFH no teto, financiado 100% com LCI: hoje e com +1,5 p.p. (sem repasse)
215% → 232%1ª parcela ÷ renda média com +1,5 p.p. (slide da primeira parcela)
onde está a discussão · set/2026

Não há projeto, alíquota nem calendário. A MP 1.303 (5% sobre emissões novas) caducou em out/25 depois de o relator retirar LCI e LCA. Em jul/26 o ministro Durigan disse que, se Lula for reeleito, o governo volta a estudar o fim da isenção; em 17/08 Bradesco e Santander responderam que o investidor pedirá mais remuneração e o custo vai para o tomador. É um risco de 2027, condicionado à eleição — e cai no meio da transição do novo modelo do BCB, que aposta na LCI como substituta da poupança.

cenárioLCI precisa pagarfundingtaxa SFI / plano empresário1ª parcela (SAC 360, LTV 80%)
hoje90-100% do CDI14,5%++0,0% → 215%
IR de 5% (texto original da MP 1,303)~100% do CDI+0,7 p.p.+0,7 p.p.+3,7% → 223%
IR de 15-17,5% (tabela regressiva)112-115% na teoria; CDB limita a ~105%+1,0 a +1,5 p.p.+1,0 a +1,5 p.p.+7,9% → 232%
SFH · a taxa não pode subir
Mecânica
Com a régua cumprida e a poupança parada, o crédito marginal é financiado com LCI, não com poupança — o próprio Voto 134/2025 do BCB registra 60% de LCI nas concessões de jul/25. Um SFH novo no teto de 12% + TR, captado a LCI de ~14,5%, já rende −14% de ROE marginal; com a LCI tributada vai a −20% (+0,7 p.p.) ou −28% (+1,5 p.p.). Nada disso pode ser repassado, porque a taxa está no teto. Com a mistura do voto (60% LCI, 40% poupança) o SFH marginal renderia ~10% hoje e ~1% com a LCI tributada a +1,5 p.p.
Resposta do banco
Quantidade, não preço: cota menor, LTV menor, fila mais lenta. O comprador do MAP que cabe no SFH não vê a taxa mudar — vê a cota encolher.
SFI e plano empresário · a taxa sobe 1:1
Mecânica
Funding 100% de mercado e ROE marginal já entre −3% e +8%: não há gordura. O banco repassa o aumento do funding inteiro — +0,7 a +1,5 p.p. — para quem está acima do teto de R$ 2,25 mi e para o plano empresário.
Para a Cyrela
MAP acima do teto e obra financiada pagam a conta; a Vivaz não sente (funding FGTS). Efeito preço no comprador é modesto (+4% a +8% na parcela) perto do que já aconteceu desde 2021 (162% → 215% da renda).
premissas a verificar

ROE marginal com as premissas do slide anterior (PIS/Cofins 4,65%, cost-to-income 50%, LGD 30%, capital 35% × 8%, IR/CS 45%); LCI hoje a 90-100% do CDI com CDI de 14,5%; competição com CDB limita a LCI a ~105% do CDI; crédito marginal 100% LCI (a régua está cumprida — slide da régua — e o Voto 134/2025-BCB dá 60% de LCI nas concessões de jul/25); o estoque antigo segue na poupança. Fontes: Seu Dinheiro 17/08/26, InfoMoney ago/26, Câmara (MP 1.303).

parte 1 · o negócio

O apetite existe.
O funding, não.

Quanto cada porta origina — desde 2002R$ bi · 12 m · IMOB (2015+) e ABECIP (2002-25, inclui PJ)5010015020042007201020132016201920222025FGTS · 122 bi (recorde)SFH PF · 92 biSFI · 48 biSBPE total (ABECIP) · pico 115 bi em 2014SBPE total 2002-25 (ABECIP, PF+PJ) — pontilhadoo SBPE foi de R$ 2 bi (2002) a 115 bi (2014) e caiu pela metade em 2016-17; o pico de 2021 do SFH PF (146) só é comparável ao de 2014 em nominal
Os estoques de fundingR$ bi · BCB até fev/25 · pontas 2025-26: B3/ANBIMA (tracejado)200400600800201520172019202120232025poupança SBPE · 761LCI · 540 (B3)CRI · ~250 (ANBIMA)LIG · ~114 — paradaa poupança capta negativo; a LIG parou; a LCI cresce forte (+29% em 2025) — mas custa perto de CDI
o fecho da sequência

O ROE diz que o banco quer originar SFH — e a originação FGTS bate recorde. O que trava é a fonte: a poupança capta negativo, e o funding que cresce é o caro — a LCI subiu 29% em 2025 e chegou a R$ 544 bi (B3, jun/26; R$ 509 bi em dez/25), mas custa perto de CDI cheio. A LIG, criada para ser o funding longo do sistema, parou em R$ ~114 bi (ANBIMA/B3, a conferir). Resultado: o funding barato míngua, o que cresce custa caro, e a originação SFH fica abaixo do pico — racionada pela fonte, não pelo apetite.

parte 1 · o negócio

FGTS e CEF — usos e fontes
do funding do MCMV.

Fontes
8% da folha CLT
Depósito compulsório de todo empregador — arrecadação que não depende de convencer ninguém.
O custo do dinheiro
Cotista remunerado a TR + 3% + distribuição de resultados — abaixo até da poupança. É o funding mais barato do sistema.
A sangria nova
Saques extraordinários: MPs de 2025-26 liberaram R$ 7,8 bi retidos; na mesa, +R$ 10 bi para quitar dívidas; caixa projetado do fundo revisado para ~R$ 165 bi.
Usos — orçamento 2026 (CCFGTS)
R$ 160,2 bi no ano
Orçamento recorde — mais que o dobro de 2022 (R$ 66 bi).
R$ 144,5 bi · habitação
90% do total: financiamento e produção MCMV, imóveis até R$ 500 mil.
R$ 12,5 bi · subsídios
Descontos de entrada para as faixas 1–2 (até R$ 55/65 mil por família).
CEF, operador único
Enquadra, mede, desembolsa e cobra — todo o circuito passa por um banco público.
a tensão

Orçamento recorde na saída, sangria crescente na entrada: o mesmo fundo que banca o maior MCMV da história está sendo drenado por saques — e cada nova hipótese de saque aprovada no Congresso disputa o caixa com a habitação. A fartura de hoje é decisão de conselho; a de amanhã depende da folha salarial e da política.

parte 2 · médio e alto padrão

O comprador de meio de pirâmide
saiu do jogo.

O peso da primeira parcela% da renda média · BCB 2014201620182020202220242026 200% 361% 162% · 2021 215% hoje
a conta

Juro SFH de 14% e LTV de 80% (premissa da conta; o praticado é ~66%): a primeira parcela de um apto de 60 m² em SP consome 2,2× a renda média. O médio padrão virou mercado de quem tem entrada grande.

parte 2 · médio e alto padrão

Existem dois mercados
de imóvel em São Paulo.

201620182020202220242026 100 +162% · IGMI-R (financiados) +55% · o que está anunciado
dois mercados

O imóvel que transaciona com financiamento (IGMI-R, novos e usados) valorizou 3× mais que o parado em anúncio. A Cyrela vende no primeiro; o estoque pronto envelhece no segundo.

parte 2 · médio e alto padrão

Em termos reais, o metro quadrado
nunca voltou a 2014.

O preço real nunca voltou — em trinta anosR$/m² São Paulo deflacionado pelo IPCA, jan/2008 = 100FipeZap mensal 2008-26FipeZap histórico semestral 1994-2007 (base JGP, mesmo índice)5010015020019962000200420082012201620202024hoje · 166pico real: 08/14 · 216vale: 2004 · 731994 · 84até 2008: FipeZap histórico semestralo Real estreou com o m² de SP valendo, em termos de hoje, menos da metade de2014 — a década 2004-14 foi a única grande valorização real em trinta anos
preço real

Deflacionado, o m² usado de SP segue 23% abaixo do pico de 2014 — uma década de ganho zero matou o argumento do investidor.

parte 2 · médio e alto padrão

O investidor comparou com a Selic.
E parou de comprar.

Quando valeu carregar imóvelretorno 12m = apreciação (FipeZap SP) + yield de aluguel · vs Selic 12m0%10%20%30%2009201120132015201720192021202320252009–13 · imóvel ganha em 100% dos meses2014–19 · empate2022–26 · Selic ganha em 69%média SP · 10%Selic · 15%compacto (1 dorm) · 10%
R$ 100 em 2008, com o aluguel reinvestidonúmero-índice · base jan/2008 · aluguel bruto reinvestidosem vacância, IPTU, condomínio e IR: líquido de ~4,5% dá cerca da metade500100015002009201220152018202120242014compacto SP · 18×nacional · 12×Selic · 6×toda a vantagem nasce aquidesde 2014: Selic 3.3× · compacto 3.4× · nacional 3.0×
a conta do carregador

Retorno de carregar imóvel = apreciação 12m + yield de aluguel (média SP; tracejada dourada = compacto 1 dorm, yield 7,2%) — sem descontar IPTU, condomínio, vacância e corretagem (o líquido é menor). Desde 2014, o imóvel empata com a Selic nos anos bons e perde nos maus; hoje entrega 10% contra 15% do CDI sem risco e sem esforço — e nem o compacto do investidor escapa: rende mais aluguel, mas aprecia menos, e empata nos mesmos ~10%. É a demanda do investidor que falta no MAP — e ela só volta com juro baixo ou preço amassado.

parte 2 · médio e alto padrão

Estoque de quase um ano
— e já foi mais que o dobro.

Meses para vender o estoque — três réguas, trinta anosoferta ÷ vendas mensais médias 12m · Secovi-SP capital (1996+) · Cyrela (2010+) · Abrainc MAP Brasil (2015+)10203019982002200620102014201820222026Cyrela · 15,5 mesesAbrainc MAP Brasil · 11Secovi-SP · 10ago/10: 2,5 meses — SP vendia na plantajan/1999: 19 meses na crise da âncora cambial3T16: 30,5 meses — o fundo da criseSão Paulo oscila entre 2,4 e 19 meses há trinta anos; a Abrainc só nasce em 2014 — o ciclo inteiro está na régua de SP e na da Cyrela
estoque

O MAP roda com ~11 meses de estoque no Brasil e São Paulo com ~10 — melhor que o pico da crise, quando a Cyrela chegou a 30,5 meses (3T16) e São Paulo a 19 (jan/99). A régua longa mostra o outro extremo: em 2010 a capital tinha 2,5 meses de oferta — vendia-se na planta, na largada. Hoje é um mercado normalizado onde a oferta espera o comprador; a Cyrela, com 15,5 meses, carrega mais estoque que o mercado por escolha de mix (alto padrão vende mais devagar).

parte 2 · médio e alto padrão

No usado, o anúncio é só
o começo da conversa.

65%das vendas têm desconto
14%desconto médio de quem cede
40%compradores investidores
74%deles compram p/ alugar
Quanto do usado sai com descontoRaio-X FipeZap 20172023 65% dão desconto
como ler

FipeZap é preço de anúncio — o teto da negociação; a mesa fecha abaixo. O gráfico mostra o desconto real e sua quebra de nível.

parte 2 · médio e alto padrão

Alugar rende 6,5%.
Financiar custa 14,0%.

Alugar rende vs financiar custa% a.a. · FipeZap SP · BCB 2008201020122014201620182020202220242026 financiar · 14,0% alugar · 6,5%
o concorrente

Alugar rende 6,5%; financiar custa 14% — o um dos spreads mais largos desde 2017 (8,6 p.p. em set/25). A para quem tem a entrada, alugar e aplicar a diferença rende mais que financiar enquanto o preço real não sobe — é a demanda que falta no MAP.

parte 3 · MCMV

O MCMV tem juro próprio.
E ele não segue a Selic.

O juro do crédito à pessoa física% a.a. · BCB 201620182020202220242026 SFH · 14,0% FGTS · 9,1%
por desenho

Funding FGTS remunerado abaixo do mercado por lei: o SFH dobrou, o juro do programa subiu 3 p.p. Teto reajustado, Faixa 4 criada — demanda blindada por decisão política.

parte 3 · MCMV

Os parâmetros do MCMV —
e como eles andam.

Rendas: Portaria MCID 333/2026 (DOU, 1º/abr) · tetos e subsídio: Conselho Curador do FGTS (nov/25, vigência 2026)
Faixa 2 · renda até R$ 5.000
Teto R$ 275 mil · juros 4,75–7% · subsídio decrescente com a renda.
Faixa 3 · renda até R$ 9.600
Teto R$ 400 mil (novo; usado 270 mil) · juros 7,66–8,16% · sem subsídio — o benefício é o juro.
Faixa 4 · renda até R$ 13.000
Teto R$ 600 mil (R$ 500 mil na criação, Res. CCFGTS 1.116/25; os 600 mil só em fonte secundária) · juros 10–10,5% · até 35 anos · sem subsídio — a porta da classe média (2025).
O teto do imóvel — dezessete anos de degrausR$ mil · RMSP, topo da tabela · CCFGTS150300450600201020122014201620182020202220242026banda estendida 2017–20 · renda 9 mil · proto-F4 (Res. 836/17)teto por localidade até 2023F1–2 · 275F3 · 400F4 · 600
O juro do programa — quase imóvel% a.a. + TR · topo da faixa · não-cotista · Sudeste4%6%8%10%2010201220142016201820202022202420268,16% desde 2011 (norma a confirmar) — só piscou no corte de 0,5 p.p. de 2021–22F2 · até 7,0%F3 · 8,16%F4 · ~10%
Até onde vai cada faixa — o limite de rendaR$ mil/mês nominais · fim de cada faixaLeis 11.977/09 e 12.424/11 · Res. CCFGTS 2016-17 · Port. 786/24CCFGTS abr/25 · Port. abr/264 mil8 mil12 mil20102014201820222026F4 · 13,0 milF3 · 9,6 milF2 · 5,0 milF1 · 3,2 mil2017: F3 vai a 9 mil — o proto-F42020: o CVA corta a F3 para 7 milem salários mínimos o programa encolheu: o topo da F3 era 10 SM em 2009 — hoje são ~5,9 SM (salário mínimo de 2026). A F4 recompra o terreno perdido
O desconto do FGTS — quanto o programa paga da entradaR$ mil · subsídio máximo por faixa nas capitais SP/RJ/DF · marcos principais · Leis 11.977/09 e 12.424/11 · Res. CCFGTS 2016-17 · MCMV 2023 · CCFGTS nov/2520 mil40 mil60 mil20102014201820222026Norte · 65 mil (nov/25)F1 e F2 · 55 mil2016: nasce a F1,5 — subsídio dobra para quem ganha até 2.3502009-15: F1 e F2 com o mesmo desconto (23 → 25 mil)o desconto abate a entrada e enquadra o LTV: 55 mil sobre um imóvel de 275 mil é 20% do preço — pago pelo cotista do FGTS, remunerado a TR+3%
a direção

Dois subsídios empilhados — juro abaixo do mercado (todas as faixas) e desconto FGTS de até R$ 55 mil (F1–2) — pagos pelo cotista, remunerado a TR+3%. E cada revisão alarga o programa para cima — mais renda, mais teto, mais gente elegível. O teto que prende a margem também sobe por portaria: quem opera colado nele (nosso slide do teto) ganha reajuste de tabela a cada rodada. A contrapartida: cada faixa nova pode morder um pedaço do que era mercado livre (o tíquete do estoque médio da Cyrela, R$ 830 mil, ainda está acima do teto da Faixa 4) — inclusive o do médio padrão.

parte 3 · MCMV

Quem paga a conta — OGU,
FGTS e o pedágio da CEF.

De onde vem o dinheiro
FGTS — a perna parafiscal
Habitação: R$ 97 bi (2024) → 137 (2025) → 144,5 (2026). O plurianual mantém 144,5 em 2027 e já corta para 139,5 bi em 2028-29.
A conta de sustentação
Captação líquida de R$ 22 bi (arrecadação 212,6 − saques 190,4) cobre ~15% do orçamento de habitação — o resto é o giro da carteira e o estoque do fundo (ativo R$ 838 bi, PL 126 bi, lucro R$ 14,7 bi; as contas dos trabalhadores renderam 6,9% (TR + 3% + distribuição) — DF do FGTS 2025). Margem prudencial mínima de 1,5% virou norma em 2025.
OGU + Fundo Social — a perna fiscal
A Faixa 1 vive de subsídio direto: ~R$ 45 bi no orçamento do Fundo Social de 2026, com o Fundo Social do pré-sal virando a fonte dominante. A lição de 2015-22: o aporte caiu a ~R$ 1 bi/ano e a Faixa 1 parou.
O pedágio da CEF
Agente financeiro
Diferencial de juros de até 2,16% a.a. na PF e até 3,0% no plano empresário, + taxa de acompanhamento de 1,5% do financiamento (Res. CCFGTS 702).
O risco é dela
O FGTS empresta à CEF e cobra dela: a inadimplência do mutuário fica com a CEF, não com o fundo — o spread regulado é o preço desse risco.
Escala de balcão único
a Caixa, com carteira de R$ 1 trilhão, é 68% do crédito imobiliário do país (58% ligada ao MCMV), 659 mil unidades MCMV financiadas só em 2025.
o que isso significa para a Vivaz

O cheque de 2026-27 está escrito: R$ 144,5 bi do FGTS + ~R$ 45 bi da União/Fundo Social. Os riscos têm data e nome: 2028 (o plurianual já orça queda), a eleição (Faixa 4 esticada a R$ 600 mil — o programa subindo a pirâmide), e o Congresso disputando o caixa do FGTS saque a saque. O funding do MCMV é político, não de mercado: abundante hoje — e revisável por resolução.

parte 3 · MCMV

De programa social
a 83% do mercado.

Quem vende no Brasil: o MCMV desde 2009barras: unid. MCMV (FGTS/FS) ÷ unid. financiadas SBPE+FGTSMCid, ABECIP, FGTS 2009-25linha: share do MCMV nos lançamentos Abrainc (2014-25)25%50%75%100%20092011201320152017201920212023202549%46%48%59%Abrainc · lançamentos das associadas · 86%desde 2009 o programa é metade das unidades financiadas do país — e chegou a 59% em 2025:o "83%" da Abrainc é a foto das incorporadoras listadas, não uma anomalia recente
onde está o volume

83% das unidades financiadas (SBPE + FGTS) e 86% dos lançamentos das associadas Abrainc são MCMV — volume, subsídio e giro. O capital das incorporadoras migrou junto.

parte 3 · MCMV

Gira mais rápido.
E distrata menos.

Meses para vender o estoqueAbrainc · Brasil 2014201620182020202220242026 MAP · 11,3m MCMV · 8,5m
o outro lado

Gira em 8,5 meses (vs 11,3 do MAP), mas distrata ~9% das vendas brutas (vs ~15% no MAP sobre vendas brutas, 17% sobre líquidas; Abrainc, 12 m a abr/26) — o associativo aprova o crédito na planta; quem mais desiste é o comprador do MAP.

parte 3 · MCMV

O teto do programa
vira o preço do mercado.

Compra encostada na avaliação do bancopreço mediano de compra ÷ valor de avaliação · financiamentos PF · %BCB (IMOB)90%95%100%201620182020202220242026abr/26: 93% — compra R$ 280 mil vs avaliação R$ 300 mil · desconto de 7%01/25: 108%2018: 98% (desconto 2%)o desconto sobre a avaliação encolheu de ~2% (2018) para ágio de 0-2% em 2024 (8%em jan/25) e volta a 7% em 2026 — quando o teto sobe, o preço para de encostar
teto = preço

Mediana nacional pregada no teto por localidade do MCMV de 2023 (R$ 264–265 mil, o das cidades menores) por nove meses, acima até da avaliação bancária. O teto do programa é a variável de política mais importante do setor.

parte 4 · o funding

A fonte histórica do crédito
encolhe há dez anos.

O saldo real da poupançaR$ bi de hoje · BCB 20122014201620182020202220242026 pico real · 2020 R$ 1028 bi · -28%
a fonte seca

A poupança perdeu 17% em termos reais desde jan/2015 (28% desde o pico de 2020) — e paga TR+6% num país de Selic de 14-15%. O estoque que financia o SFH só sangra.

parte 4 · o funding

O sistema bateu no teto.

A régua do direcionamento e out/25R$ biexigibilidade (65% do SBPE) vs aplicações computáveis em crédito imobiliárioBCB (IMOB)200400600201520172019202120232025jul/18 · Res. 4.676SFH até R$ 1,5 miout/25 · novo modelocompulsório dedução de 5% (Res. BCB 512):R$ 36,9 bi liberados p/ habitaçãojan/26 · recômputoaplicações −R$ 55 bi num mêsexigível · 494aplicado · 488 (99%)112% do exigível109% do exigívelaté dez/25 os bancos aplicavam 104-109% do exigível — a régua não travava, a fontesim; em jan/26 o novo modelo redefine o cômputo e a leitura recomeça em ~99%
Trinta anos de direcionamento: quanto da poupança virou casafinanciamentos habitacionais ÷ saldo da poupança SBPE · BCB, quadro do direcionamento 1995-2017 (base JGP) · IMOB 2014-26 (linha tracejada)25%50%75%100%125%19962000200420082012201620202024exigível: 65% da poupançaIMOB (aplicações) · 64%2002: 18% — o SBPE quase não financiava casa1995: 105%2015: 110%no fim dos anos 90 o "direcionamento" era FCVS e crédito contábil: em 2002só 18% da poupança financiava moradia; o SFH que conhecemos nasce em 2005-14
o teto é a fonte, não a régua

De 114% do exigível aplicado em 2015 (132% no pico, jul/18) para ~105% em 2025: o sistema sempre aplicou mais do que a régua mandava — o que faltou foi poupança, não obrigação. Em out/25 o novo modelo liberou 5 p.p. do compulsório (R$ 36,9 bi, com obrigação de virar crédito habitacional) e mudou o cômputo: em jan/26 as aplicações computáveis caem R$ 55 bi de um mês para outro e a leitura recomeça em 99% — a régua nova nasce encostada por definição. O racionamento segue por quantidade — cota, LTV e fila — porque o SFH está colado no teto legal. E o funding que repõe (LCI/CRI, ~R$ 790 bi) custa CDI: o que morre na transição é o subsídio implícito da TR.

parte 4 · o funding

O novo modelo, no texto da norma —
não no release de imprensa.

65% → 100%direcionamento da poupança e dos DII a partir de 1/1/2027 (art. 15, I)
80%em condições SFH: teto R$ 2,25 mi (desde 10/10/25) e custo efetivo ≤ 12% a.a. (art. 13)
5% → +1,5 p.p./anodedução do compulsório para crédito novo desde 13/10/25; alíquota de 20% permanece (Res. BCB 512)
Selic + 4%custo de quem descumprir a régua a partir de 2027, recolhido em dinheiro no dia 15 (art. 21)
Como a régua passa a contar (art. 19-A)
A troca
Sai o saldo contábil da carteira; entra valor nominal contratado × fator, consumido mês a mês. A poupança "financia" o crédito só pelo prazo do fator; depois, a carteira roda em LCI/LIG (Voto 134/2025, ¶13 e ¶32).
Fatores
60 (regra geral, prazo ≥ 30 anos) · 72 aquisição SFH com imóvel > R$ 1 mi · 84 aquisição SFH ≤ R$ 1 mi · 24 produção residencial, sobre o valor total do contrato, inclusive o não desembolsado. Prazos menores: proporcional (n/6, n/5, n×84/360).
Transição
Estoque antigo segue pelo saldo contábil até vencer (art. 25-G). A lacuna entre 80% e o aplicado em dez/26 entra 1/120 por mês, dez anos, limitada a 15% (art. 25-K). O Voto ¶61 admite: o efetivo começa "muito próximo dos atuais 65%".
DII
Depósito interfinanceiro imobiliário: ≥ 1 ano, sem resgate; quem recebe fica sujeito à régua. Já existia como aplicação computável; o novo é o capítulo próprio (arts. 14-A a 14-C).
O que a norma NÃO diz — e o mercado repete
"Fim do compulsório"
Não há. A Res. BCB 188 mantém 20%; a Res. 512 cria dedução facultativa de 5% (até dez/26) e +1,5 p.p. ao ano. Nenhum teto de 20% e nenhum calendário de extinção estão escritos.
"Fim do direcionamento"
Ao contrário: sobe a 100%, alcança os DII e a parcela livre é revogada. O que acaba é a contagem por saldo contábil.
"Funding via CRI"
CRI não aparece na Res. 5.255. O incentivo à securitização é indireto: ceder a securitizadora não reduz o saldo a utilizar (art. 19-D, §2º).
"Fase de testes em 2026"
Linguagem de coletiva. Juridicamente, 2026 é a dedução do compulsório com os mesmos fatores e 80% SFH (IN BCB 677). Nenhuma norma alterou o modelo até set/26; a avaliação do art. 26-A é devida até o fim de 2026.
para a Cyrela

Três consequências diretas. Plano empresário virou SFH (art. 12, IV) e conta com fator 24 sobre o contrato inteiro, desembolsado ou não — é o crédito mais "barato" de contar para o banco — mas passa a carregar o custo efetivo máximo de 12% do art. 13, o que limita por lei o preço do funding da própria obra. Aquisição até R$ 1 mi conta 84; acima, 72: a régua prefere o tíquete do Living ao do alto padrão, que está colado no teto de R$ 2,25 mi. E não há dinheiro novo em 2027: com a base reduzida pelo compulsório e pela lacuna de dez anos, o direcionamento efetivo nasce perto dos 65% de hoje — o que muda é o preço do funding ao longo do tempo, da TR para o CDI, um fator de cada vez.

Fontes primárias: Res. CMN 5.255 e Res. BCB 512 (DOU 10/10/2025, Extra A); IN BCB 677 (29/10/25), 692 e 765 (jul/26); Voto 134/2025-BCB anexo ao Voto 64/2025-CMN; Res. 4.676/2018 consolidada v17; quadro de alíquotas do Deban (20/08/26). Dossiê: cyrela/novo_modelo_bcb.md.

parte 4 · o funding

Seis anos de canetadas.
A régua não se mexeu; a LCI, sim.

Seis anos de canetadas no funding — o que mudou e o que não mudounormas CMN e BCB, 2019-2027 · só fonte primária (BCB, DOU, votos)régua e SFHcompulsórioLCI · LIG · CRIprodutos e LTV201920202021202220232024202520262027Res. 4.739SFH sem TR obrigatóriaRes. 4.774 · Circ. 3.975encaixe vira compulsório de 20%Circ. 4.033pandemia: só deduçõesRes. 4.837home equity na régua (3%, até nov/20)Res. BCB 188compulsório consolidado: 20%Res. 5.001LIG: prazo médio ≥ 24 mRes. 4.909 → 5.055patrimônio de afetação obrigatório na produçãoRes. 5.118 · 5.119CRI só lastro imobiliário · LCI 90 d → 12 mRes. 5.168LCI: 12 → 9 mRes. 5.197cota de crédito: LTV 80/90, LTV agregado (jul/25)Res. 5.215 · 5.212LCI 9 → 6 m · CRI veda PJ não imobiliáriaRes. BCB 471financeiras emitem LCIRes. 5.255 · BCB 512novo modelo: teto R$ 2,25 mi, dedução 5%1/1/2027régua 100% com fatores; DII
a leitura

Entre 2019 e out/25 os dois parâmetros que sustentam o SFH — direcionamento de 65% e compulsório de 20% — não mudaram uma vírgula; a pandemia trouxe deduções temporárias, não corte de alíquota. Toda a ação regulatória foi no funding de mercado: prazo mínimo da LCI de 90 dias para 12 meses em fev/24 (a emissão líquida secou no ano, como mostra a decomposição do estoque) e depois de volta a 9 e 6 meses; lastro do CRI limpo em 2024-25; LIG passando a deduzir da régua. A única mudança estrutural na régua é a de out/25 — e ela só produz efeito pleno em 2027, um fator de cada vez.

parte 4 · o funding

Só entra o que sai.

Originação SFH vs. o que a carteira devolveR$ bi · 12 mesesamortização implícita = concessões − Δcarteira · BCB4080120160201620182020202220242026originação · 92 biamortização · 65 bi (70%)pico · 146 bi (Selic 2%)a faixa entre as curvas é o funding novo necessário — e ela encolheu: 70% da originação de hoje é a carteira girando
a conta que governa a oferta de crédito

Com a régua efetiva perto de 65% (os 100% de 2027 são nominais — slide da norma) e a poupança captando negativo, a originação nova do SFH é refém do giro: dos R$ 92 bi originados em 12 meses, ~R$ 65 bi (70%) vieram da amortização da própria carteira — que devolve ~11,5% ao ano (estimativa nossa: amortização implícita ÷ carteira, IMOB). O novo modelo solta um one-off (R$ 36,9 bi do compulsório) e aumenta o multiplicador, mas não cria captação. A escala do lado da Cyrela: a oferta MAP dela é R$ 10 bi de estoque (%CBR; R$ 14 bi a 100%) + R$ 11,5 bi/ano de lançamentos — só o estoque de uma companhia equivale a ~15% de um ano inteiro de originação SFH do país. Quando a Selic cair e a amortização acelerar (em 2021 o giro foi a 21%/ano), o funil abre sem precisar de dinheiro novo.

parte 4 · o funding

Imóvel e renda andaram juntos
desde 2018. O que correu foi o juro.

O imóvel financiado e a renda, desde 2018100 = jan/2018 · valor médio do imóvel financiado (BCB, IMOB)renda média PNADC, MM12 201620182020202220242026 imóvel · 170 renda · 173
a síntese

Desde 2018 o imóvel financiado (+70%) e a renda média (+73%) andaram juntos; o que abriu a tesoura foi o juro, que levou a primeira parcela de 162% para 215% da renda desde 2021. Sem renda, o MAP depende de entrada e juro; o MCMV, de subsídio e teto.

parte 5 · a companhia · 6 · o preço

A máquina, a alavanca
e o imposto.

16,7%ROE ajustado · LTM (contábil 19,5%; a companhia divulga 20,9%)
5,8%alíquota efetiva · 2025
−54%landbank desde 2019
0,3%terreno líquido ÷ PL

parte 5 · a máquina

O comprador é sócio do ciclo.
A Cyrela, dona da roda.

Terrenohoje: 54% a dinheiro (2T26)LançamentoPoC de largada: 33%Obra + vendareceita pelo PoCEntregarepasse · caixaPayoutR$ 1,6 bi de dividendos + recompras em 10 triTerreno a prazoa pagar: R$ 3,2 biROE 16,7%ajustado · LTM
mudança de 2025

A roda passou a ser reabastecida com terreno comprado a prazo — não mais em permuta. É alavancagem nova, fora da dívida líquida (slide dos terrenos a pagar).

parte 5 · a máquina

A roda gira em três velocidades.

VSO trimestral — alto padrão20%40%60%VSO · 11%2013201520172019202120232025
VSO trimestral — médio20%40%60%VSO · 20%2013201520172019202120232025
VSO trimestral — MCMV (Vivaz)20%40%60%VSO · 32%2013201520172019202120232025
como ler

VSO trimestral = vendas ÷ (lançamentos + estoque inicial), da planilha operacional do RI, por segmento (100%). As barras ao fundo são os lançamentos em nível: lançamento vende mais rápido que estoque, então acelerar lançamentos empurra a VSO — o pico de 32% do Alto Padrão no 4T24 é a safra Vista/Heaven vendendo na largada. O sinal de alerta: mesmo com lançamentos recordes em 2024–25, a VSO do AP caiu para 11%, o o pior nível desde a pandemia (2T20: 6,5%) e abaixo de todo 2021-25 — a fraqueza está no estoque, não na falta de produto novo. O MCMV segura ~30% desde 2024 (22-26% em 2023).

parte 5 · a máquina

A vantagem de venda existe —
no alto padrão, não na Vivaz.

Vendido por idade do lançamento% vendido na foto de mai/26 × meses desde o lançamento · SP capital · Geoimóveltracejado = mercado ex-Cyrelaalto padrão (marca Cyrela)Cyrela (n=51) vs mercado luxo (n=616)40%60%80%100%0-6 m6-12 m12-24 m24-36 m36-60 m77%88%77%96%90%LivingLiving (n=61) vs mercado médio-alto (n=1667)40%60%80%100%0-6 m6-12 m12-24 m24-36 m36-60 m74%92%84%92%93%VivazVivaz (n=80) vs mercado econômico (n=737)40%60%80%100%0-6 m6-12 m12-24 m24-36 m36-60 m58%65%86%98%99%
A fatia da Cyrela nos lançamentos da cidade de São Paulo — pelo critério da Secoviunidades lançadas por Cyrela + Living + Vivaz na capital (Geoimóvel) ÷ unidades lançadas na cidade (Secovi-SP/Embraesp)traço cinza: mesma conta com o denominador do Geoimóvel · *2026 = jan-mai nos dois lados (cobertura do Geoimóvel ainda incompleta)5%10%15%20%8,6%201965 mil un.10,7%202060 mil un.8,6%202182 mil un.8,5%202276 mil un.8,4%202373 mil un.10,8%2024104 mil un.10,9%2025140 mil un.12,2%2026*53 mil un.
o que a base de mercado diz

No alto padrão a vantagem é real e grande: entre 6 e 12 meses do lançamento a Cyrela está com 88% vendido contra 63% do mercado de luxo, e entre 24 e 36 meses 96% contra 85% — o "prêmio de marca" que o Itaú BBA mede pelo Geoimóvel (relatório de 27/10/2025, em fontes/) aparece aqui na base inteira, não só nos ícones. A Vivaz é o contrário: vende mais devagar que o mercado econômico no primeiro ano (65% vs 77%) e só empata depois de dois anos — o modelo é preço no teto e fila do programa, não velocidade. E a fatia da Cyrela na cidade, medida com o denominador da Secovi, foi de 8,6% das unidades em 2019 para 10,9% em 2025 e 12,2% em jan-mai/26 — cresce, mas menos do que o Geoimóvel sozinho sugere (16,0% em 2026, inflado pela cobertura incompleta da base). Ressalvas: foto única, com 9 a 25 projetos da Cyrela por ponto e viés de sobrevivência (projetos cancelados ou relançados somem) (não é curva por safra), e o "Luxo" da Cyrela lança a R$ 17-18 mil/m², abaixo da mediana do luxo do mercado — parte da velocidade é posicionamento de preço.

parte 5 · as três rodas

Cada roda remunera
o capital de um jeito.

Retorno operacional sobre o capitallucro operacional LTM ÷ PL médio do segmento · nota do ITRnão é ROE: antes de resultado financeiro e IR10%20%30%40%201520172019202120232025MCMV · 39,9%Living · 33,2%alto padrão · 23,4%fundo · 3,6% · 3T18Living sem 2019-20: quebra de perímetro quando o MCMV foi separado (2T19); a série não cruza a quebra
Quanto do lançamento é da Cyrela — o %CBR por roda%CBR ponderado por VGV · lista do RI 1T05-2T26tracejado: % consolidadoa era dos sócios no MCMVCury, Plano&Plano e sócios regionais: metade do VGV era de terceiros, e a maior parte fora da consolidaçãoa Vivaz é própriaJVs listadas saem do perímetro25%50%75%100%20072010201320162019202220252026MAP · 77%MCMV · 77%MCMV consolidado · 74%
o prêmio de cada velocidade

O alto padrão fez a travessia inteira do ciclo — 20% no auge de 2014, 3,6% no fundo de 2018, ~23% estabilizado. O Living é a máquina mais consistente (30%+ desde o 3T24). E o MCMV é o que mais acelera: 17% → 39,9% em cinco trimestres — real, mas amplificado pela base de capital pequena do segmento. Atenção ao nome: isso não é ROE — é lucro operacional (a nota não aloca juros nem IR) sobre o capital alocado ao segmento.

parte 5 · as três rodas

A margem e a régua:
quem tem o INCC a favor.

Margem bruta por segmento e INCC, desde 2010% · trimestre · nota de segmentos do ITR/DFP (2010-26)INCC-M 12m (FGV)10%20%30%40%201020122014201620182020202220242026MCMV · 36,6%Living · 33,1%alto padrão · 31,3%INCC-M 12m · 6,7%até 1T19 o Living inclui o MCMV4T18: 23% — o fundo do alto padrão
Correlação da margem com o INCC, por defasagemr de Pearson · INCC-M 12m defasado k trimestres · n = 28alto padrão (azul) × MCMV (vermelho)-0,4+0,4+0,39-0,270123456+0,12-0,4978defasagem do INCC (trimestres)
a racionalização

MAP: o recebível corrige INCC durante a obra e a companhia carrega um excesso de recebível indexado de ~R$ 2,6 bi (ex-Vivaz e líquido de permuta, segundo o call) sobre o custo a incorrer — INCC alto sobe a margem no ato (r = +0,39 sem defasagem; 2021 foi o ano de maior margem desde 2010). MCMV: o preço trava no repasse à CEF e o orçamento assume 6% de inflação + 2% de imprevisto — a inflação de ~7 trimestres antes é a que sai na margem de hoje (r = −0,49). Nossa hipótese, ainda não demonstrada: parte dos 36% da Vivaz em 2025-26 é o INCC de 3-5% de 2023-24 virando margem. A correlação é fraca (r = −0,49 na defasagem 7, a melhor entre nove testadas, com 28 trimestres autocorrelados) e o canal do orçamento explica no máximo 1-2 p.p. dos 6-8 p.p. de alta; o resto é safra, mix e o teto de 2023, que a gestão cita (e, no call do 1T25, produtividade). O teste é a pergunta 2 ao RI. O INCC já voltou a 6-7% desde o fim de 2024; pela defasagem, chega à margem da Vivaz entre o fim de 2026 e 2027.

parte 5 · rentabilidade

19,5% reportado. 16,7% ajustado —
e a DuPont diz de onde veio.

ROE em vinte anoslucro 12 meses ÷ PL médio (controladora)ajustado = ex-one-offs pós-IR (ledger dos calls; antes de 2020 igual ao reportado; o PL médio não é ajustado)ex-equivalência = tira o resultado de equivalência do lucro e o book de Investimentos do PLIPO e expansãomargem alta, giro altoa ressaca do boomestouros de obra, margem caia travessiagiro some, dois anos no vermelhoo ciclo bommargem volta ao nível de 2007;o giro, não0%10%20%30%40%2006200820102012201420162018202020222024reportado 38%: marcação dos IPOs de Cury, Lavvi e P&P (2T21)3T18: -2,7%ajustado · 16,7%reportado · 19,5%ajustado ex-equivalência · 16,8%
DuPont: ROE = margem líquida × giro do ativo × alavancagem12 meses · margem ajustada ex-one-offs · giro = receita ÷ ativo total médio · alavancagem = ativo médio ÷ PL médiomargem líquida ajustadalucro ÷ receita0%10%20%30%201020152020202528% · 3T07-6% · 1T1818% hojegiro do ativoreceita ÷ ativo0,20×0,30×0,40×0,50×20102015202020250,51× · 3T080,22× · 1T180,38× hojealavancagemativo ÷ PL1,50×2,00×2,50×3,00×3,50×20102015202020253,24× · 3T091,61× · 1T072,47× hoje
a decomposição

4T07: 24,7% × 0,45× × 1,89× = 21,1% · 4T13: 13,3% × 0,39× × 2,61× = 13,5% · 4T17: -3,6% × 0,24× × 1,90× = -1,6% · 4T24: 19,7% × 0,42× × 2,23× = 18,7% · 2T26: 17,7% × 0,38× × 2,47× = 16,7%. O histórico do ROE é uma história de margem: ela vai de 25% a -4% e volta a 18%. O giro nunca voltou: 0,45× em 2007, 0,38× hoje — o ativo cresceu com recebível, estoque e CashMe mais rápido que a receita. A alavancagem subiu de 1,82× no fundo para 2,47×: terreno a prazo, debêntures e as PN. Sem as participações (Cury, Lavvi, P&P e SPEs em equivalência: tira-se o resultado de equivalência do lucro e o book de Investimentos do PL), o ROE ajustado é 16,8%, igual ao consolidado ajustado; na base reportada a diferença é +1,3 p.p. (20,8% vs 19,5%): a valor contábil, as participações rendem 16,6% sobre R$ 3,2 bi de book (com ágio dentro), menos que a máquina própria, e não "inflam" o ROE como o relatório do Itaú BBA (out/25) sugere. Leitura contrária: o ROE de hoje é margem no topo da década (17,7%; 2007 chegou a 24,7%) × giro medíocre × alavancagem crescente. Com a margem mediana de vinte anos (13,5%) e o giro atual, o ROE seria ~13% — a vizinhança do steady-state de 12,8% do modelo Empresa Nova (aba auxiliar).

parte 5 · a alavanca

A dívida nova não está no banco.
Está com o vendedor do terreno.

Terrenos a pagarR$ bi · CP + LP 0,620190,520200,820210,820220,920232,020242,920253,22T26
alavancagem escondida

Terrenos a pagar: 3,6× em dois anos, recorde da série que temos (2019-26) — não aparece na dívida líquida e os juros correm dentro da margem bruta (plausível pelo CPC 12, não demonstrado: a linha de juros capitalizados é majoritariamente SFH).

parte 5 · o estoque de futuro

O banco de terrenos encolheu
pela metade em seis anos.

Banco de terrenos — dezessete anosVGV potencial 100% · R$ bi · fim de ano · releases 4T09-2T262040602009201220152018202120242T262012: R$ 57,1 bi — o pico, com Agre e expansão nacional2019: R$ 37,8 bi2T26: R$ 17,5 bi2009: R$ 39,2 bido pico de 2012 o landbank encolheu 70% em nominal — e o consumo acelerou: o estoque caiu à metade dosR$ 37,8 bi de 2019 em seis anos, já corrigido a INCC e com reposição, enquanto se lançaram ~R$ 70 bi
permuta: 55% → 46% do valor do terreno desde o 4T24 reposição: a prazo e em dinheiro

parte 5 · o que já foi vendido

R$ 18,7 bi vendidos que ainda
não viraram caixa.

Contas a receber por estágio, 2009-26R$ bi · conceito econômico dos releases (inclui receita a apropriar)tracejado: total em R$ de jun/2026 (IPCA)expansão nacionalcarteira no pico,prazo de 3 anosseis anos de encolhimentoentrega mais do que vende;carteira cai a um terçoa nova safracarteira quadruplica,quase toda em obra1020302009201120132015201720192021202320251T13: CPC 19 tira as sociedades em conjunto3T20: pró-formatotal · R$ 18,7 biem construção (a performar, INCC) · 17,1construídas (performado, IGP-M + 12%) · 1,64T10: R$ 12,2 bi da época = R$ 29,1 bi de hoje
O que sobra depois de terminar a obraR$ birecebível total menos custo orçado a incorrer das unidades vendidas e do estoquereleases 4T09-2T26246810200920112013201520172019202120232025recebível líquido do custo a incorrer · R$ 7,4 bicusto a incorrer das unidades vendidas · 7,8custo a incorrer do estoque · 3,5custo do estoque só é aberto a partir do 2T114T25: custo do estoque dobra sem explicação no releaseestoque +8%, mix igual, buckets ×2 — parece perímetro; pergunta 31 ao RI
a leitura

A carteira de R$ 18,7 bi é 92% obra em andamento, corrigida por INCC — é daí que vem o "overhedge" do call. O performado (IGP-M + 12%) é só R$ 1,6 bi, 8% do total, contra 22% no fim de 2019 (28% no 1T19): a Cyrela vende, entrega e repassa; carrega pouca carteira própria — e o que securitiza vai para a CashMe. Em termos reais a carteira de hoje ainda não voltou ao pico de 4T10 (R$ 29,1 bi em dinheiro de hoje). O outro lado, com a ressalva de que o custo do estoque dobrou no 4T25 sem explicação (pergunta 31 ao RI; se for perímetro, a piora some): para cada R$ 1 a receber há R$ 0,61 de obra contratada a fazer (vendidas + estoque), contra R$ 0,45 em 2012 — o recebível líquido de R$ 7,4 bi é o que de fato protege o balanço, e ele cresce menos que o bruto. Só com as vendidas a cobertura é de R$ 0,42 por real, contra R$ 0,30 em 2012.

parte 5 · preço

O estoque é remarcado
todo trimestre. Para os dois lados.

A marcação do estoque, tri a tri% do estoque anterior 2013201520172019202120232025 boom 2013: até +3,8%/tri as faxinas de 1º tri
marcação

Série reconstruída por identidade contábil, por identidade contábil (estoque inicial + custo − baixas), sem ponte oficial para bater: positiva no boom e no INCC, negativa nas revisões anuais de tabela.

parte 5 · imposto

O imposto é uma fração da receita —
enquanto o ativo fica no trilho.

SPE · projetoRET: 4% da receitaEquivalênciasobe isentaHoldingIR corrente: zeroPayoutdividendo isento5,8%alíquota efetiva 2025 Fora do trilho: Pininfarina → imobilizado R$ 431 mi saem do estoque (DFP 2025) venda vira ganho de capital 34% sobre o ganho + ITBI ~3% vs 4% do preço como estoque (RET) EZ Towers fez o oposto EZTEC vendeu a Torre B (comercial) por R$ 650 mi em 2017 — alíquota não localizada

parte 5 · alinhamento

O dono, o bônus
e o espólio.

O bônus certo
Pool = lucro econômico de projeto entregue
Só entra no bônus o que o projeto entregou acima do custo de capital — EVA por projeto, apurado na entrega, não no lançamento.
Cauda de ~5 anos
Parte é retida até os terrenos comprados no exercício virarem entrega: quem compra terreno ruim hoje come o prejuízo do próprio bônus.
Variável é o pacote
~74% da remuneração da diretoria (R$ 20,6 mi para 6 diretores em 2025). Sem metas ASG — por escrito no FR.
O equity ausente
Sem stock options — de propósito
O modelo é 100% cash sobre o ciclo. Coerente com o negócio; mas deixa a diretoria com 0,06% das ações (conselho: 0,23%).
O alinhamento por ações é um só
O bloco de 28,6% está inteiro na pessoa física de Elie Horn (20,9% direto + holdings no Uruguai e BVI). Filhos e diretoria: quase nada.
Sucessão pela metade
A operação foi passada em 2014 (Efraim e Raphael). O controle nunca foi — e o destino do bloco nunca foi sinalizado.
o risco de cauda

Elie, 82, prometeu doar 60% da fortuna em vida (Giving Pledge, 2015) — e a fatia na Cyrela é essencialmente toda a fortuna. A ponte que preserva o bloco existe: R$ 398 mi em 2025 (28,6% dos R$ 3,80/ação) em dividendos financiam o pledge sem vender uma ação. Mas o desenho do espólio é privado: o modelo de incentivos funciona enquanto houver um dono na mesa — sem o bloco, vira uma corporation de executivos sem equity.

parte 5 · monitor

Três coisas para vigiar.

1Juros dentro da margem. Os juros apropriados ao custo saíram de R$ 25 mi (1T23) para R$ 73 mi/tri (2T26) — e o terreno a prazo capitaliza mais. A margem REF de 36,2% é o colchão.
2O ROE precisa de roda, não de alavanca. Giro parado em 0,38×; alavancagem em 2,47× — a maior desde 2014. O payout segura o denominador.
3O destino do Pininfarina. R$ 431 mi fora do trilho fiscal, a TRX desistiu em 28/08/26 (fato relevante de 31/08), e o prédio segue sem depreciar, sem receita e sem aluguel confirmado.

parte 6 · o preço

O que a ação entregou —
e de onde veio.

CYRE3 contra CDI e Ibovespa, 21 anosbase 100 = set/2005 · escala log · B3, BCB, IPEADATA1002004008002007201020132016201920222025CDI · 8,0×CYRE3 total · 7,5×Ibovespa · 5,9×só preço · 3,3×nov/08: −81% do pico2016: começa a fase que fez o retorno7,7× em 21 anos até 02/09/26 (10,2% a.a.; o gráfico, no fechamento de agosto, mostra 7,5×) — empate com o CDI; só preço 3,4× (6,0% a.a.)
De onde veio o retorno: reprecificação, book ou distribuiçãoretorno total = ΔP/B × Δbook por ação × proventos reinvestidos · largura ∝ |contribuição em log| · tracejado = fator < 1 (derating)2005-26P/B 0,38× (−4,5% a.a.)book/ação 8,79× (+10,9% a.a.)distribuições 2,29× (+4,0% a.a.)2016-26P/B 2,08× (+7,1% a.a.)book/ação 1,95× (+6,4% a.a.)distribuições 1,69× (+5,0% a.a.)P/B 2,6× na oferta de 2005 → 0,48× no fim de 2015 → 1,00× hoje · book/ação R$ 2,89 → 13,06 → 25,43 (PN especiais na base; só ON: R$ 30,5 e P/B 0,84×)

parte 6 · o preço

A ação é um título de juros
longos — com o dobro da sensibilidade do Ibovespa.

A ação e o juro de 10 anosbase 100 = jan/2010 · zero-cupom de 10 anos (Tesouro Direto)a ação ignora o juroestouros de orçamentoe margem em quedacrisejuro a 16%juro cai, ação sobecom beta ~2pandemiachoque erecuperaçãojuro volta a subir,ação cai juntodescolamentojuro alto, ação sobepelos fundamentos50100150200201020122014201620182020202220242026CYRE3 · 140título 10 anos · 88
a pergunta em aberto

Nas variações mensais a Cyrela segue o juro de 10 anos com correlação de −0,6 desde 2016 e cai ~10% a cada +100 bp — o dobro do Ibovespa (−10,4% vs −5,1% por +100 bp desde 2010; −13,9% vs −6,4% desde 2016 — regressões mensais nos dados do projeto). Nos ciclos de 2015-23 as duas curvas viraram juntas. 2024-26 é a exceção: o juro de 10 anos voltou ao nível de 2015-16 e a ação, em vez de voltar ao vale, subiu — sustentada por lucro recorde, distribuições e o rerate de P/B. Ou o mercado antecipa o juro caindo, ou a ação está, pela primeira vez, sem o colchão do juro: se ele ceder para 11-12% (−250 a −350 bp), a sensibilidade histórica dá +25-35%; se não ceder, o preço está caro pela régua de todos os outros ciclos.

As regras do jogo: a contabilidade da incorporação

Sete normas explicam a DRE da incorporação — uma aba para cada.

O selo oficial da jabuticaba: todo relatório de auditoria do setor carrega um parágrafo de ênfase. Na Cyrela (Deloitte, DFP 2025): as demonstrações seguem as práticas "aplicáveis às entidades de incorporação imobiliária no Brasil registradas na CVM", com o reconhecimento de receita de unidades não concluídas seguindo o entendimento da diretoria sobre o CPC 47 "alinhado com aquele manifestado pela CVM no Ofício Circular CVM/SNC/SEP nº 02/2018". Sem ressalva — mas é o lembrete de que a comparação com incorporadoras fora do Brasil exige tradução.
CPC 47 (IFRS 15) · Ofício-Circular CVM/SNC/SEP 02/2018 · OCPC 01/04

Receita pelo andamento da obra (PoC)

A receita da unidade vendida na planta é reconhecida pela evolução financeira da obra — custo incorrido ÷ custo orçado (terreno incluído) — aplicada às unidades vendidas. É uma jabuticaba aceita pela CVM (transferência contínua de controle, Lei 4.591/64): no IFRS aplicado no resto do mundo, a receita só nasceria na entrega.

Na Cyrela, a obra só começa com ≥30% vendido, 6–12 meses após o lançamento, e dura ~26 meses; o reconhecimento de cada projeto inicia junto com a obra e apropria de uma vez o custo já acumulado.

A margem de hoje é a decisão comercial de 2–3 anos atrás; o lucro anda anos à frente do caixa; revisões do custo orçado batem na margem corrente de uma vez.

Três movimentos que explicam tudo

Razonetes com os números do Lançamento 100M (VGV 100, custo orçado 68).

1 · Só a obra avança (+10 p.p. de PoC, 60% vendido)

Premissa das colunas: quanto da receita do período o cliente paga.

Entra 100%Entra 50%Entra 0%
DRE · Receita (10% × 60 vendidos)+6,0+6,0+6,0
DRE · COGS (68 × 10% × 60%)(4,1)(4,1)(4,1)
DRE · Lucro bruto+1,9+1,9+1,9
DRE · Margem bruta32,0%
Balanço · Estoques (obra +6,8 − apropriação 4,1)+2,7+2,7+2,7
Balanço · Caixa (entra X% − 6,8 da obra)(0,8)(3,8)(6,8)
Balanço · Contas a receber0,0+3,0+6,0

A DRE é idêntica nas três colunas — a competência não se move com o caixa; só o balanço redistribui entre caixa e contas a receber.

2 · Venda com obra a 40% (unidade de 1,00)

Premissa das colunas: quanto do preço o cliente paga no ato.

Entra 100%Entra 50%Entra 0%
DRE · Receita (1,00 × 40%)+0,40+0,40+0,40
DRE · COGS (0,68 × 40%)(0,27)(0,27)(0,27)
DRE · Lucro bruto+0,13+0,13+0,13
DRE · Margem bruta32,0%
Balanço · Caixa+1,00+0,500,0
Balanço · Estoques(0,27)(0,27)(0,27)
Balanço · Contas a receber0,00,0+0,40
Balanço · Adiantamento de clientes (passivo)+0,60+0,100,0

A venda puxa todo o PoC acumulado de uma vez; o que o cliente paga além do reconhecido vira passivo — a receita desse caixa só nasce com a obra.

3 · Estouro de orçamento (68 → 74; obra 70%, 80% vendido)

Premissa das colunas: quanto do preço das unidades vendidas o cliente já pagou. Novo PoC = 47,6 ÷ 74 = 64,3% (cai de 70%).

Entra 100%Entra 50%Entra 0%
DRE · Receita (estorno: 64,3% × 80 vs 70% × 80)(4,5)(4,5)(4,5)
DRE · COGS (incorrido das vendidas não muda)0,00,00,0
DRE · Lucro bruto(4,5)(4,5)(4,5)
DRE · Margem bruta do trimestren.m. (estorno de receita)
Balanço · Caixa0,00,00,0
Balanço · Contas a receber0,0(4,5)(4,5)
Balanço · Adiantamento de clientes (passivo)+4,50,00,0
Margem do projeto (vida inteira, de uma vez)32% → 26%

O estorno nunca devolve caixa: encolhe o contas a receber — e, se o cliente já pagou tudo, aumenta o passivo de adiantamento. Cumulative catch-up: o passado reprecificado num trimestre (o tombo da Plano&Plano no 2T26); a margem REF cai junto.

3b · O mesmo estouro na companhia perpetuada (1 de 13 projetos)

Companhia madura: 13 safras idênticas, um Lançamento 100M por trimestre, sem inflação (para isolar o efeito). O projeto de obra 70% / 80% vendido estoura 68 → 74.

AntesTri do estouro6 tri seguintes
Receita do trimestre100,095,5~100,0
Lucro bruto32,027,5~31,5
Margem bruta consolidada32,0%28,8%~31,5%
Impacto−3,2 p.p.−0,5 p.p./tri

Um erro de 9% no orçamento de um projeto entre 13 rouba 3,2 p.p. da margem do trimestre (o catch-up de uma vez) e ~0,5 p.p. dos seis seguintes (o ferido termina a obra a 26%); depois a margem volta a 32%. Por isso o mercado pune revisões: além do tombo, um orçamento estourado raramente vem sozinho — os irmãos de safra dividem o mesmo INCC.

O reconhecimento na prática — 2T26

Cada bolha é um empreendimento real: evolução financeira reconhecida no trimestre × idade do reconhecimento. Tamanho = receita apropriada no 2T26. Nota: o % do Anexo III é receita apropriada ÷ receita total do projeto — pelo CPC 47, PoC físico × fração vendida. As curvas desta seção medem a conversão do projeto em receita, não o avanço físico da obra isolado (o anexo não abre o % vendido).

Alto Padrão Médio MCMV 2 e 3

O ciclo de vida em uma foto: projetos recém-entrados apropriam em catch-up (até 49% num único trimestre); a obra a pleno vapor roda 5–10% por trimestre; o fim de vida pinga 0–3%. Os 40 nomeados somam R$ 1,3 bi no trimestre — 52% do total apropriado de R$ 2,5 bi.

Ver os 40 empreendimentos

Receita reconhecida acumulada por safra (1T22–2T26, 14 releases)

Média geral Safra até 2022 (deslocada: fim = 100%) Safra 2023 Safra 2024 Safra 2025–26 Projetos individuais em obra (censura 2T26)

A safra "até 2022" nasce antes da janela (1T22), então seu início não é observado — e a curva bruta não fechava em 100%. Como das idades 17–21 os incrementos são ~0 (projeto concluído e vendido), o fim é platô real: a tracejada está deslocada +21pp para ancorar o fim em 100%, o que revela o ponto de partida. Dois achados. (1) O catch-up de entrada aumentou: início implícito de ~21% nas safras antigas contra ~33% nas safras 2023+. (2) O ritmo de conversão em receita mudou pouco: ancorada, a safra antiga corre ~8–10pp atrás das 2023–24 a vida inteira — gap quase constante, herdado da entrada; a leitura ingênua de "2× mais rápido" era, em boa parte, artefato da janela. A safra 2025–26 segue o padrão das novas. Ressalva: o anexo nomeia só os maiores de cada trimestre.

Receita reconhecida acumulada por segmento (1T22–2T26)

Alto Padrão Médio MCMV (Vivaz) série cortada (N<3) fecho indicativo (N<3)

O desdobramento do mix: MCMV nasce ~10pp mais baixo (~27% vs ~36% na idade 0 — terreno e pré-obra são fração menor do custo total) e converte em receita mais rápido (idades 4→8: +36pp contra +24pp do Alto Padrão — obra de ~24 meses vs ~36 somada a vendas rápidas de lançamento), cruza os demais na idade ~5 e encerra 3–4 trimestres antes. O fecho tracejado é indicativo — usa os 2 projetos que sobram além do filtro de N≥3: o Vivaz cruza o 100% na idade ~12, contra ~15 do Alto Padrão. Alto Padrão e Médio são indistinguíveis. Implicação: mais Vivaz no mix encurta o ciclo de capital (giro) — e a diferença entre safras não vem daí: dentro de cada segmento, o padrão por safra se repete.

Deliberações CVM 561/08 e 624/10 · nota explicativa das DFs

REF: o resultado que fica fora do balanço

O espelho do PoC: se a receita entra conforme a obra anda, tudo o que foi vendido mas ainda não construído fica fora do balanço. Receita de vendas a apropriar, custo orçado a incorrer e a margem resultante — o "resultado de exercícios futuros" (REF) — são divulgados apenas em nota explicativa, por determinação das Deliberações CVM 561/08 e 624/10.

A margem REF (lucro bruto a apropriar ÷ receita líquida a apropriar) é o indicador antecedente mais importante do setor: é a margem que a DRE vai reconhecer nos próximos 2–3 anos, se o orçamento de obra se confirmar. Companhias saudáveis operam com REF acima da margem corrente — a corrente converge para o backlog.

O porém está na condicional: a REF é calculada sobre o custo orçado, uma estimativa gerencial. Estouro de custo (INCC, materiais, mão de obra) reduz a REF e, pior, obriga revisão que comprime a margem corrente de uma só vez.

Acompanhe a margem REF trimestre a trimestre e compare com a margem reconhecida: gap positivo e estável = margem contratada; REF em queda = o problema de amanhã já está no backlog de hoje.

A conta de tradução — 2T26

Passo%De onde vem
Margem REF36,2%lucro bruto a apropriar ÷ receita líquida a apropriar — ex-juros por construção (o custo orçado não inclui juros a capitalizar) e já líquida dos impostos a apropriar (R$ 254 mi)
− juros capitalizados que entrarão no COGS−2,9 p.p.quando o backlog vira receita, carrega o custo do SFH: no 2T26, R$ 73 mi de juros apropriados ÷ R$ 2.481 mi de receita
± revisões de orçamento, distratos e mix de apropriaçãoresidualo custo orçado é estimativa; e o que se apropria num trimestre não é fatia proporcional do backlog (o Vivaz converte mais rápido)
≈ margem bruta reportada esperada~33–34%reportada efetiva do 2T26: 34,4% — a tradução fecha
A régua na direção oposta: reportada + juros = ajustada37,3%34,4% + 2,9 p.p. — esta é a margem comparável à REF, e a própria Cyrela a divulga

REF e reportada nunca serão iguais por construção: a REF exclui os juros capitalizados que a reportada carrega no COGS (~3 p.p. hoje — pedágio que cresce com Selic e dívida de produção). A comparação honesta é ajustada × REF: no 2T26 a ajustada (37,3%) cruzou acima da REF (36,2%) — o que está sendo apropriado hoje roda melhor que a média do backlog, puxado pelo mix Vivaz. Margem contratada, não esticada.

Margem bruta × margem REF — histórico (3T05–2T26)

Reportada (planilha RI) Ajustada ex-juros (releases) Margem REF (releases)

Três leituras. (1) A régua de 21 anos: nem o superciclo 2005–08 passou de ~45%, e os estouros de obra pós-IPO (4T10: 24,5%) e a crise (3T17: 24,6%) mostram o chão. (2) A REF é divulgada numa banda estreita — 35–36,5% por 18 trimestres — enquanto a ajustada subiu de 32,7% (1T23) até cruzá-la no 2T26: a corrente convergiu para o backlog, como a norma promete. (3) O vão entre reportada e ajustada é o juro do SFH dentro do COGS: ~1,8 p.p. em 2023, ~3 p.p. em 2026 — Selic alta cobra pedágio na margem bruta antes de aparecer no resultado financeiro.

CPC 47 · pontes de estoque dos releases · estimativa com premissas declaradas

De onde vem a receita do trimestre

A contabilidade só tem três portas de entrada para a receita: (1) vendas do próprio trimestre reconhecem na assinatura o PoC já incorrido × preço — o catch-up, pequeno num lançamento permutado, grande numa unidade em obra avançada; (2) venda de estoque pronto reconhece 100% de uma vez; (3) a obra andando sobre unidades vendidas em trimestres anteriores — ΔPoC × contratos antigos, o backlog virando DRE.

A Cyrela não divulga essa anatomia. Mas as pontes de estoque dos releases dão as vendas por origem, e com premissas de PoC na venda a decomposição fica estimável: ~20% no lançamento (mix permuta/caixa), ~50% no estoque em obra (meio de vida), ~90% do pronto consolidado. Atenção à base: até o 3T25 a ponte era divulgada em VGV 100% (com sócios e permuta) e, do 4T25 em diante, em ex-permuta %CBR — aqui está tudo convertido para ex-permuta %CBR pelo fator de vendas do próprio release (0,69–0,77), então a série é comparável de ponta a ponta.

Vendas por origem (% do VGV vendido no trimestre)

Lançamentos do trimestre Estoque em obra Estoque pronto Vendas totais (R$ mi, fundo — escala própria)

Metade do que a Cyrela vende num trimestre é lançamento do próprio trimestre (média ~49%); ~43% é estoque em obra e só 3–11% é pronto — o pronto não acumula porque gira rápido (10–19% dele vendido por trimestre, pelos releases). O extremo é o 4T24: R$ 6,7 bi lançados (100%) e R$ 2,8 bi vendidos no ato — 78% das vendas do tri. O fundo dá a escala e responde a pergunta certa: o ganho de fatia dos lançamentos vem com venda total crescendo, não com o resto encolhendo — no 4T24 as vendas totais foram recorde (R$ 3,5 bi) e o estoque em obra vendeu R$ 625 mi contra média de ~R$ 880 mi; o lançamento se soma, quase não canibaliza. O inverso no 4T25: fatia de lançamento normal, vendas totais fracas (R$ 2,4 bi).

Anatomia estimada da receita (% da receita líquida)

Obra do backlog (vendas antigas) Catch-up · estoque em obra Catch-up · lançamentos Estoque pronto Receita líquida (R$ mi, fundo — escala própria)

Com a base unificada, a fatia da receita que já estava contratada antes do trimestre começar (obra do backlog) é estável em 58–62% desde 2023 — catch-ups de vendas novas somam ~30–40% e o pronto, ~5–10%. O único desvio real é o 4T25 (72%) — e o call de resultados explica: a partir do 4T25 a Cyrela passou a renunciar formalmente, em ata, ao direito de desistir da incorporação (a carência de até 6 meses do memorial, Lei 4.591) ao fim de cada trimestre — o que liberou de uma vez reconhecimentos iniciais represados de projetos lançados em trimestres anteriores (na nossa conta eles caem no residual, porque as vendas não são do próprio tri), somado a entregas recordes no 4T (R$ 2,9 bi, +25% a/a). É estoque liberado uma única vez: o 1T26–2T26 voltou a 54–59%. Validação externa: no mesmo call o CFO decompõe a receita exatamente nestes três fatores — "receita POC (usinagem de obras), receita das vendas de unidade e reconhecimentos iniciais dos lançamentos" — e cita usinagem de R$ 4 bi em 2024 e R$ 5 bi em 2025 (~53% da receita), estimando R$ 5,5–6 bi para 2026; a nossa estimativa de ~60% chega à mesma vizinhança por caminho independente. Nota de honestidade: uma versão anterior deste gráfico mostrava um "degrau" no 4T25 que atribuímos a consolidação de SPEs; era artefato da mudança de base da ponte do release (100% → ex-permuta %CBR) — a DFP 2025 não tem combinação de negócios e a lista de investidas em equivalência é estável. Ressalva de sempre: o PoC na venda é premissa (±10 p.p. deslocam ~R$ 150–250 mi entre catch-up e backlog) e a receita é consolidada contábil enquanto as vendas são %CBR; a leitura robusta é o nível e a estabilidade, não o decimal.

CPC 20 (IAS 23) — Custos de Empréstimos

Juros capitalizados no custo

Os juros do financiamento à produção (tipicamente SFH: TR ou poupança + spread) não aparecem no resultado financeiro enquanto a obra anda. Pelo CPC 20, eles são capitalizados no estoque do empreendimento — viram parte do custo do ativo em construção.

Quando as unidades são vendidas e o PoC roda, esses juros saem do estoque dentro do custo dos imóveis vendidos, comprimindo a margem bruta. Ou seja: o custo financeiro do projeto está escondido na margem bruta, não na linha de despesa financeira.

Por isso o setor divulga a "margem bruta ajustada" (ex-juros capitalizados) ao lado da contábil. A diferença entre as duas mede quanto do aperto de margem é juro, não obra — e cresce quando a Selic sobe ou quando a companhia toma mais dívida de produção.

Compare sempre as duas margens: contábil para o resultado como ele é; ajustada para a qualidade operacional. Um gap crescente entre elas é ciclo de juros entrando no custo — não necessariamente piora de execução.

CPC 36 (IFRS 10) · CPC 19 (IFRS 11) · CPC 18 · Lei 4.591/64

Uma SPE por projeto; JVs pela equivalência

Cada empreendimento vive numa SPE (sociedade de propósito específico) — exigência prática do financiamento bancário, do patrimônio de afetação e da gestão de risco jurídico. O balanço consolidado de uma incorporadora é a soma de dezenas ou centenas de SPEs, cada uma com sócios, dívida e caixa próprios.

A consequência contábil tem dois andares. SPEs controladas consolidam integralmente, com a fatia dos sócios aparecendo como participação de minoritários. Já os negócios em controle compartilhado — as JVs — entram por uma linha única, a equivalência patrimonial: nem receita, nem margem, nem dívida passam pelo consolidado; só a fatia do lucro.

No caso da Cyrela isso é estrutural: Cury, Lavvi e Plano&Plano — três companhias listadas — contribuem apenas via equivalência. O caixa dessas participações só chega de fato via dividendos recebidos.

A receita consolidada subestima o tamanho do grupo; o lucro captura tudo. Para avaliar a companhia, a leitura natural é soma das partes: operação própria + valor de mercado das participações listadas.

Lei 10.931/2004 · RET · patrimônio de afetação

Patrimônio de afetação + RET

Criados no rescaldo do caso Encol, os dois institutos andam juntos. O patrimônio de afetação segrega juridicamente o terreno, a obra e os recebíveis de um empreendimento: se a incorporadora quebrar, aquele patrimônio não entra na massa falida — os compradores terminam a obra. É a base da confiança (e do funding bancário) do sistema.

Para o empreendimento afetado, a lei oferece o RET — Regime Especial de Tributação: IRPJ, CSLL, PIS e Cofins são substituídos por um pagamento único de 4% da receita mensal recebida (com alíquota reduzida a 1% para projetos de interesse social/MCMV dentro dos limites do programa). A apuração é por SPE, definitiva, sem relação com a margem do projeto.

Efeitos em cadeia: a alíquota efetiva do setor é baixa e relativamente insensível ao lucro; projetos de margem alta são ainda mais beneficiados (o tributo não sobe com a margem); e a comparação de lucro líquido entre segmentos ou companhias precisa considerar o mix de regimes (RET 4%, RET 1%, lucro presumido nas SPEs menores).

Não modele IR/CS de incorporadora com alíquota cheia de 34% — o imposto do setor é, na prática, uma fração da receita, não do lucro.

A conta real: alíquota efetiva de IR/CSLL sobre o lucro antes dos impostos

alíquota efetiva consolidada alíquota nominal (34%)

A tese em um gráfico: a Cyrela nunca chegou perto dos 34%. A média do período é de ~11%, com mínima de 5,8% em 2025. O pico de 20,1% em 2020 não é operacional — é o ano das marcações dos IPOs de Cury, Plano&Plano e Lavvi, ganhos que não gozam do RET. Modelar essa companhia com alíquota cheia produz erro de dezenas de pontos percentuais no lucro.

Onde o lucro é tributado — e por que a holding quase não paga

A eficiência não vem de planejamento agressivo; vem da arquitetura societária. O lucro nasce nas SPEs, é tributado lá a 4% da receita (RET) e sobe para a controladora como equivalência patrimonial — que não é tributável, porque o imposto já foi pago embaixo.

Controladora (LTM até 2T26)R$ mi
Lucro líquido2.039,8
  dos quais equivalência patrimonial1.816,7 (89%)
  receita própria13,2
Dívida na holding4.646,5 (52% do grupo)
IR/CSLL corrente0,0

A holding é uma casca com dívida: R$ 4,65 bi de endividamento (52% do grupo) e R$ 13,2 mi de receita própria em doze meses. Retirando a equivalência não tributável do lucro antes dos impostos, sobra base fiscal negativa — ela gera prejuízo fiscal recorrente, que a companhia não ativa no balanço (R$ 26,4 mi de "créditos fiscais não constituídos" só no 6M26). O paradoxo: a Cyrela é eficiente demais para conseguir usar prejuízo — nunca acumula lucro tributável na holding contra o qual compensá-lo.

Quando o ativo sai do estoque, a régua muda

Em 31/12/2025 a Cyrela reclassificou R$ 431,0 mi do estoque para o imobilizado — o edifício Cyrela Corporate by Pininfarina, por "alteração na destinação do imóvel" (nota 8 da DFP 2025). Isso não é detalhe contábil: troca o regime de tributação da venda futura.

Venda de R$ 600 mi, custo contábil R$ 450 miContaImposto
Como estoque (receita operacional, lucro presumido)7,04% × preçoR$ 42,2 mi
Como imobilizado (ganho de capital + ITBI)34% × ganho + 3% × preçoR$ 69,0 mi

Três achados que só aparecem na leitura da norma: (1) o RET é regime da incorporação, não da incorporadora — exige memorial registrado e patrimônio de afetação (Lei 10.931/2004, arts. 1º, 2º e 4º), então um edifício corporativo nunca lançado jamais esteve sob os 4%; (2) ganho de capital fura o lucro presumido — entra integralmente na base, sem presunção (Lei 9.430/96, art. 25, II), a 34%; (3) a norma anti-reclassificação da Receita é unidirecional (IN RFB 1.700/2017, art. 215) — mira quem vai do imobilizado para o estoque, e a Cyrela andou no sentido oposto, que aumenta a própria exposição. O contra-argumento a favor da companhia vem da doutrina do próprio Fisco: o critério consagrado é a destinação na origem — "é a decisão gerencial no momento da aquisição do imóvel que orienta a tributação no momento de sua venda" (Parecer Normativo CST 108/1978, transcrito no Acórdão CSRF 9101-007.449, de 11/09/2025). Como o prédio foi construído para venda, há tese para tributá-lo como receita operacional.

O precedente: EZ Towers (EZTEC, 2017)

O caso mais comparável do setor teve o desenho contábil oposto.

EZTEC · EZ Towers (2017)Cyrela · Pininfarina (2025)
ClassificaçãoEstoque, do início ao fimReclassificado p/ imobilizado
Natureza da vendaReceita operacionalGanho de capital
Imobilizado no balançoR$ 3,4 miR$ 639,8 mi
Alíquota efetiva no ano5,9%
CompradorFII (Brookfield), 100% dinheiroFII (TRX), 50% dinheiro + 50% cotas
DesfechoConcluída em 6 diasDistratada em 31/08/2026

A EZTEC vendeu a Torre B por R$ 650,4 mi mantendo-a como estoque: os recursos entraram na receita (margem bruta agregada de 52,8% no projeto) e o grupo pagou R$ 22,7 mi de IR/CSLL no ano inteiro — 5,9% do lucro antes dos impostos. Se aquele valor tivesse sido tratado como ganho de capital, o imposto sozinho passaria de R$ 117 mi. O imobilizado da EZTEC naquele ano era de R$ 3,4 mi: a torre nunca saiu do estoque.

Vender para um FII tem duas armadilhas

Receber cotas não difere imposto. Entregar imóvel a um fundo e receber cotas é alienação onerosa — o ganho vence no trimestre da transferência, sobre o preço inteiro (dinheiro + cotas). A regra de transferência a valor contábil (Lei 9.249/95, art. 23) é exclusiva de pessoa física integralizando capital social, e FII não é pessoa jurídica nem tem capital social (Lei 8.668/93, art. 6º). O ITBI incide mesmo na integralização (STJ, AREsp 1.492.971/SP). E há o limite dos 25%: pelo art. 2º da Lei 9.779/99, se um cotista com mais de 25% das cotas for incorporador, construtor ou sócio do empreendimento em que o fundo aplica, o fundo inteiro é equiparado a pessoa jurídica e perde o regime. No negócio com a TRX a Cyrela ficaria com ~18% do TRXF11 (PL de R$ 6 bi) — abaixo do gatilho; mas o MoU previa dois FIIs geridos pela Cy.Capital, com a Cyrela simultaneamente incorporadora dos ativos e cotista relevante. É exatamente o tipo de questão que aparece numa due diligence de 105 dias.

Lei 13.786/2018 ("Lei do Distrato")

Lei do distrato

Entre 2015 e 2017, a combinação de recessão com jurisprudência pró-consumidor criou a loteria do distrato: o comprador desistia e os tribunais mandavam devolver quase tudo o que fora pago — na prática, uma opção de compra gratuita contra a incorporadora, exercida em massa justamente quando os preços caíam. As DREs do setor sangraram com estornos de receita.

A Lei 13.786/2018 deu a régua: na desistência do comprador, a incorporadora pode reter a pena convencional de até 25% dos valores pagos — ou até 50% quando o empreendimento tem patrimônio de afetação — além de encargos como comissão de corretagem e taxas de fruição, com a devolução do saldo em prazos definidos.

Contabilmente, o distrato reverte receita e custo reconhecidos por PoC e devolve a unidade ao estoque — que precisará ser revendida, muitas vezes em condições piores. Por isso o nível de distratos e a venda de estoque pronto são termômetros de qualidade das safras.

O risco de cauda de 2015–17 caiu de patamar — mas não sumiu: o próprio FR 2026 da Cyrela trocou "a regulamentação reduz o risco" por "não é possível garantir que eliminará os riscos".

OCPC 01 (R1) · CPC 12 · CPC 48 (IFRS 9)

Permuta, AVP e recebíveis

Permuta é comprar terreno pagando com o próprio projeto: o dono do terreno recebe unidades futuras (permuta física) ou um percentual das vendas (permuta financeira). Pela OCPC 01, o terreno entra no estoque a valor justo, contra um adiantamento de clientes — sem desembolso de caixa. O VGV "100%" divulgado inclui a parte do terrenista; a fatia da incorporadora é o "%CBR" ou "% companhia".

AVP (CPC 12): recebíveis longos — típicos do financiamento direto pós-chaves — são trazidos a valor presente; a diferença retorna ao resultado como receita financeira ao longo do tempo. Durante a obra, as parcelas são corrigidas por INCC; depois das chaves, por índice de preços + juros.

Perda esperada (CPC 48): carteiras de crédito próprio — o pró-soluto (parcela do preço financiada pela própria incorporadora) e, no caso da Cyrela, a carteira de home equity da CashMe — exigem provisão por perda esperada desde o dia 1, além de ajustes a valor justo que entram e saem do resultado.

Permuta é a alavanca de crescer sem caixa (ao custo de dividir o VGV); AVP e PDD fazem o resultado financeiro e as "outras receitas/despesas" carregarem informação econômica real — não são linhas residuais.

Lançamento 100M

R$ 100 mi de VGV, regime SBPE, dois cenários: terreno em caixa ou permutado. Ajuste as premissas — tudo recalcula.

1 · Vendas e PoC (% do total)

Vendido — terreno em caixa Vendido — permuta PoC (custo incorrido ÷ orçado)

2 · Receita e COGS acumulados (R$ milhões)

Receita — terreno em caixa Receita — permuta COGS sem juros COGS com juros capitalizados

3 · Caixa recebido acumulado (R$ milhões)

Recebido — terreno em caixa Recebido — permuta Receita reconhecida (referência, cen. caixa)

4 · DRE e Balanço trimestrais do projeto (R$ milhões)

5 · Operacional e off-balance (estoque, VSO e REF)

6 · Métricas de retorno (saldos médios do balanço, anualizadas)

Ver tabela trimestral das curvas

Quatro leituras: (1) o PoC nasce alto porque o terreno já está no custo incorrido; (2) a permuta antecipa a DRE (o terrenista conta como vendido no dia 0), mas os dois cenários terminam nos mesmos R$ 100 mi de receita; (3) os juros do SBPE saem por dentro do COGS — mesma obra, margem menor; (4) o gráfico 3 é a moral da história: a receita corre anos à frente do caixa, e o grosso do dinheiro só chega no repasse — mexa no controle de recebimento e veja quanto da espera ele alivia.

Notas, premissas e evidências do modelo

Exemplo didático com números redondos e simplificações declaradas: vendas a preço constante; PoC sobre custo orçado total (terreno incluído desde T0, nos dois cenários, a valor justo); a dívida de produção desembolsa proporcionalmente ao custo de obra incorrido e é quitada no repasse — juros capitalizados = saldo trimestral × custo da dívida, apropriados ao COGS proporcionalmente à receita; o terreno é bancado com equity (ou permuta); dívida de produção calibrada em evidência: saldo de SFH da Cyrela ÷ custo de obra incorrido em 12M = 3.552 ÷ ~5.000 ≈ 70% no 2T26 (67% em 2025; banda 62–77% conforme o peso de terreno/juros no COGS) — no modelo maduro essa razão ≈ α. Cross-check pelas notas do ITR 2T26: juros SFH incorridos de R$ 169 mi no 1S26 → dívida média implícita ~R$ 3,2 bi a ~10,5% a.a. ≈ saldo observado; α 65–71%. Encargos apropriados ao COGS no 1S26: R$ 138 mi (~3,1% da receita → margem ex-juros real da Cyrela ≈ +3 p.p.), sendo metade de dívida corporativa alocada a projetos; cada comprador paga o percentual "durante a obra" em parcelas iguais até a entrega e o restante no repasse (T10); vendas pós-entrega são recebidas à vista; a parte do terrenista nunca vira caixa; impostos e despesas operacionais ignorados. No balanço: obra paga à vista conforme incorre; os juros acrescem ao saldo da dívida, quitada com o principal no repasse (T10); o sócio aporta capital apenas quando o caixa iria a negativo (aporte mínimo); adiantamento do terrenista é consumido pelo PoC. Política de caixa: "retido" acumula até T12; "distribuído" varre todo caixa livre ao acionista no fim de cada trimestre (o caixa do balanço fica zerado e o PL é reduzido pelas distribuições). DRE completo: comerciais incidem sobre a venda nominal de mercado no trimestre em que ocorre (permuta não paga comissão); G&A é linear em 13 trimestres, com default na visão marginal do projeto (~2%, custo incremental de rodar mais uma SPE numa plataforma existente) — para a visão de rateio da companhia, deslize para ~5,5% (média Cyrela/pares); RET incide sobre a receita reconhecida e é pago no mesmo trimestre; resultado financeiro = rendimento sobre o saldo de caixa do início do trimestre. Correções (v2.5): custos de obra e saldos devedores dos clientes corrigem pelo INCC (parcelas e repasse corrigidos até a data do pagamento; contratos liquidam no repasse); unidades em estoque valorizam a INCC + spread até serem vendidas (o estoque contábil permanece a custo — a valorização aparece como margem na venda); PoC segue a evolução física da obra. ROIC usa NOPAT ex-financeiro. TIR do acionista: fluxo trimestral de equity = distribuições − aportes, com o caixa final de T12 entrando como liquidação (no cenário retido é onde quase todo o valor retorna); taxa trimestral anualizada.Off-balance (Deliberação CVM 561): receita a apropriar = valor corrigido dos contratos vendidos − receita reconhecida; custo a apropriar = custo orçado atribuído às unidades vendidas − custo apropriado, ex-juros (como no setor, a margem REF é por construção sem juros capitalizados — compare com a margem bruta reconhecida, que os inclui); estoque a valor de mercado = unidades não vendidas ao preço corrente (INCC + spread); VSO = vendas do trimestre ÷ oferta no início do trimestre (na permuta, o T0 inclui o terrenista). Ponto de atenção (não modelado): o terreno "em caixa" é pago à vista em T0; na prática paga-se parcelado e condicionado ao lançamento, o que reduziria o equity médio e elevaria o ROE do cenário caixa — e, em sentido contrário, o landbank real é comprado 1–2 anos antes do lançamento. Retornos: médias simples dos 13 saldos trimestrais; ROE = lucro do projeto (após juros capitalizados) ÷ PL médio; ROIC = lucro antes dos juros capitalizados ÷ capital investido médio (dívida + PL − caixa); anualizados pela vida de 3 anos do projeto.

Evidência (DFP 2025/CVM e demonstrações trimestrais): a Cyrela roda comerciais de 10,0% da receita (11,0% em 12M) — mas o consolidado dela carrega o selling de projetos por equivalência sem o lucro bruto correspondente, além do descasamento vendas de hoje × receita PoC de safras antigas. Nos pares que consolidam tudo, a mediana é ~9% (Cury 9,2 · Direcional 9,4 · Moura Dubeux 8,9 · MRV 8,8 · EZTec 8,5 · Tenda 8,2 · Lavvi 7,8) — default calibrado aí. G&A: Cyrela 5,6%, em linha com os pares (4,4–7,0%) — default 5,5%.

Consolidado: um Lançamento 100M por trimestre

Um Lançamento 100M novo por trimestre, corrigido pela inflação. A partir de T13 a companhia está madura e cresce à inflação.

1 · Receita e lucro líquido por trimestre (R$ mi)

Receita líquida Lucro líquido

2 · Margens (%)

Bruta Bruta ex-juros REF Líquida

3 · Balanço (R$ mi)

Patrimônio líquido Dívida de produção Caixa

4 · Retornos e alavancagem (%)

ROE anualizado Dívida ÷ PL Dívida líquida ÷ PL

DRE da companhia, trimestre a trimestre (R$ mi)

Balanço, off-balance e retornos da companhia (fim de cada trimestre)

Notas do modelo

Agregação: no trimestre T da companhia, cada linha = Σ sobre os projetos vivos (lançados em ℓ = T−12 … T) do valor do projeto na idade T−ℓ, escalado por (1+g)^ℓ, com g = inflação trimestral (INCC anual do slider). Na política "retido", o caixa final de cada projeto é devolvido ao acionista quando o projeto morre (idade 12). ROE anualizado = 4 × lucro do trimestre ÷ PL corrente. Para a escala da Cyrela real, multiplique por ~30× (lançamentos %CBR de ~R$ 3 bi/trimestre).

FipeZap (Fipe, anúncios de venda) · deflator IPCA/BCB · jan/2008–jul/2026, mensal

Preços de imóveis nas praças da Cyrela

Duas visões do mesmo dado: o índice nominal (como os preços aparecem nos anúncios) e o índice deflacionado pelo IPCA — o que interessa para margem e para o poder de compra do comprador. Base 100 = jan/2008 nas duas. Porto Alegre fica fora das curvas (a série da Fipe só começa em jun/2012) e entra nas estatísticas do texto. Nota sobre MCMV: o FipeZap é construído com anúncios online de venda — não exclui o MCMV formalmente, mas o sub-representa muito (MCMV novo vende em stand e repasse na planta, quase não passa por portal de anúncio; o grosso da amostra é usado de médio/alto padrão). Ou seja: estes gráficos descrevem o mercado das marcas Cyrela e Living; o preço da Vivaz é regido pelos tetos do programa (R$ 210–275 mil F1–F2, R$ 500–600 mil F4), não pelo mercado de anúncios. Para preço com MCMV dentro, a referência é o IVG-R do BCB (avaliações de financiamento: +5,2% em 12m, na mesma toada).

Índice nominal (100 = jan/2008)

São Paulo Rio de Janeiro Brasil (composto FipeZap)

No nominal, 18 anos de festa: SP multiplicou por 4,6× e o RJ por 3,8× desde 2008 — quase tudo concentrado no superciclo 2008–2014. De lá para cá, a inclinação despenca: SP roda a +3,7% e RJ a +4,7% nos últimos 12 meses, com IPCA de 4,4%.

Índice real — deflacionado pelo IPCA (100 = jan/2008)

São Paulo Rio de Janeiro Brasil (composto FipeZap)

A visão que importa: em termos reais, o país inteiro ainda opera abaixo do pico de agosto/2014 — São Paulo −23%, Rio −45%, Brasil −23% (Porto Alegre, fora das curvas, −31%). E o giro recente é anêmico: 12 meses reais de −0,7% em SP, +0,2% no RJ, −2,9% em POA, +1,0% no Brasil. Duas consequências para a tese: (1) não há alavanca de preço para margem nas praças core — a margem da Cyrela vem de custo, mix e INCC repassado, como a gestão descreve; (2) tampouco há bolha a corrigir — o ajuste real pós-2014 já aconteceu, e o risco de hoje é de volume (oferta recorde em SP com financiamento a 14,3% a.a.), não de preço.

Preço × INCC na janela do ciclo de obra

Para cada mês, a variação acumulada nos X meses anteriores — a janela entre lançar e entregar. Se o preço corre abaixo do INCC na janela, o projeto entregue viu o custo corrigir mais que o produto valorizar. Ajuste X para o ciclo: ~48 meses na marca Cyrela, 30–36 na Vivaz.

São Paulo (FipeZap) Rio de Janeiro (FipeZap) INCC-DI acumulado

A régua da margem em uma imagem: quem entregou no superciclo (janelas terminando em 2012–15) viu o preço subir 2–3× o INCC — as margens de 35% de então. De 2016 em diante as curvas de preço passam a correr coladas ou abaixo do INCC — o Rio chegou a ter janelas de 48 meses com preço nominal caindo (2018–22) — e na janela que termina hoje (48m), SP acumula +21,6% contra INCC de +23,4% (spread −1,8 p.p.) e o RJ +13,8% (−9,6 p.p.); em 36m os spreads são −4,3 e −7,5 p.p. Duas leituras: (1) a margem de quem entrega hoje não ganhou nada do mercado — veio de compra de terreno e execução; (2) a premissa do simulador de estoque valorizando a INCC + spread foi generosa no ciclo recente — o mercado pagou INCC − 2 a − 10 p.p. no MAP. É o outro lado do hedge INCC: os recebíveis corrigem, mas o estoque não acompanha.

Abrainc-Fipe (~20 incorporadoras associadas, Cyrela incluída) · mensal, acumulados 12m · dez/2015–abr/2026

Liquidez do mercado: oferta × demanda

Unidades lançadas, vendidas e em oferta das associadas da Abrainc, separadas por segmento — a amostra que melhor espelha o mix da Cyrela (MAP = Cyrela/Living; MCMV = Vivaz). A régua de liquidez é meses de estoque: oferta ÷ venda média mensal dos últimos 12 meses.

Médio e alto padrão — lançamentos × vendas (12m, mil unidades)

Vendas 12m Lançamentos 12m Oferta (mil unid., fundo — escala própria)

O aperto do segmento core da Cyrela está na linha vinho: vendas 12m caíram de ~43 mil unidades (abr/24) para 32,6 mil (−24% em dois anos) — o juro a 14,3% mordendo a demanda. Os lançamentos recuaram junto (28,2 mil) — a disciplina da amostra evitou inundar o mercado — e a oferta ficou em 30,8 mil unidades.

MCMV — lançamentos × vendas (12m, mil unidades)

Vendas 12m Lançamentos 12m Oferta (mil unid., fundo — escala própria)

O motor do mercado: vendas 12m de 162 mil unidades (+22% em dois anos), sustentadas pelos tetos novos do programa. Mas os lançamentos correm à frente (166 mil) e a oferta subiu 40% em dois anos (82 → 114 mil unidades) — a competição crescente que o CFO da Cyrela admite nos calls. O segmento ainda é líquido, e o Faixa 4 abre demanda nova; o sinal amarelo é o estoque acumulando pela primeira vez na série.

A régua da liquidez — meses de estoque (oferta ÷ venda mensal média 12m)

Médio e alto padrão MCMV Total

O MAP chegou a 26,5 meses no fim de 2021 — a ressaca da orgia de lançamentos pós-pandemia — e normalizou para ~11 desde 2024. A distância entre as duas pontas do mix da Cyrela: MAP em 11,3 meses de estoque contra 8,5 do MCMV (que era 7,4 há dois anos — deteriorando na margem). Na cidade de São Paulo o quadro é mais apertado que a média nacional das associadas: 9,6 meses no total e 12,9 meses no MAP (Secovi-SP, jun/26). A tradução para a tese: a liquidez sustenta o giro rápido da Vivaz (nossas curvas de conversão) e explica o VSO 12m da Cyrela cedendo a 42,8% e o estoque pronto de alto padrão dobrando desde 2T24 — o risco de volume mora no MAP, exatamente onde os preços correm abaixo do INCC (aba Preços).

Anuário Secovi-SP 2025 (11ª ed., cidade de SP) · Raio-X FipeZap (Fipe/Grupo OLX, nacional)

Perfil da oferta — cidade de São Paulo

O que a cidade está produzindo (dormitórios, metragem, faixa de preço), a que velocidade vende (VSO) — e os dois termômetros micro da mesa de negociação: desconto e participação de investidores. SP concentra 73% do estoque da Cyrela.

Transações com desconto (12m, BR)
65%
Raio-X 2T26 · média hist. 64% · pico dez/25 (67% revisado)
Desconto médio (quando há)
14%
máxima histórica (= 2016 e 2020)
Compradores investidores (12m)
40%
74% deles para alugar · média hist. 43%
Oferta final — cidade de SP
85,2 mil
+40% a/a · VGO R$ 62,2 bi (dez/25)

Lançamentos por dormitórios (% das unidades, 2016–2025)

1 dormitório 2 dormitórios 3 dormitórios 4 dormitórios

A cidade parou de produzir apartamento de família: 1 dormitório saiu de 15% para 31% dos lançamentos e 3 dormitórios despencaram de 21% para 5% — mínima da série. Dois dormitórios (hoje majoritariamente compactos de MCMV) seguram ~62%.

Vendas por faixa de área útil (% das unidades, 2016–2025)

até 30 m² 31–45 m² 46–65 m² acima de 65 m²

Em 2016, o clássico 46–65 m² era 41% das vendas; hoje é 6%. Até 45 m² virou 86% do mercado (22% abaixo de 30 m²). A metragem que a Cyrela/Living vende no MAP virou nicho — e é onde o estoque da cidade está mais pesado (12,9 meses).

Lançamentos por faixa de preço (% das unidades, 2021–2025)

até R$ 264 mil R$ 264–350 mil R$ 350–700 mil acima de R$ 700 mil

O efeito-teto do MCMV em tempo real: a faixa R$ 264–350 mil saltou de 16% para 36% dos lançamentos quando o teto da Faixa 2 subiu — é o corredor onde a Vivaz opera. Acima de R$ 700 mil (Cyrela/Living) encolheu para 9% das unidades, mas o anuário registra o luxo >R$ 5 mi como a faixa que mais cresceu (+169%): o MAP virou barra-bell.

VSO da cidade de São Paulo (média do ano, %)

VSO 12 meses VSO mensal médio

O VSO 12m de 61% parece o melhor da série — mas é retrovisor: o mensal médio caiu para 12,3% (−7% a/a) com a oferta final recorde de 85,2 mil unidades. O par confirma os 9,6 meses de estoque da aba Liquidez.

O mercado sem o MCMV — VSO médio por segmento (cidade de SP, %)

Outros mercados (MAP) MCMV

O headline da cidade é blended — e o MCMV mascara o resto: em 2025, o MAP girou a 9,9% ao mês contra 14,3% do MCMV, com as vendas MAP caindo 11% (45,8 → 41,0 mil unidades) enquanto o MCMV crescia 25%. Por metragem, é mais duro ainda: tudo acima de 65 m² — o produto clássico Cyrela/Living — gira a ~6% ao mês (≈15 meses implícitos); só o 31–45 m² segura os 14%.

Escoamento da oferta — meses para zerar o estoque (dez de cada ano)

Outros mercados (MAP) MCMV

A régua que responde "está muito pior sem o MCMV?": sim. O MAP paulistano saiu de 7 meses (dez/24) para 11 meses em dez/25 e 12,9 em jun/26 (Secovi mensal) — oferta +38% num ano contra vendas −11%. O MCMV segue líquido em ~8 meses. E o nacional das grandes incorporadoras confirma (Abrainc, abr/26): MAP em 13,6 meses de consumo com vendas −24% em dois anos. O "mercado ok" dos headlines é um mercado MCMV; o segmento das marcas Cyrela e Living opera em deterioração rápida de liquidez — com o agravante da aba anterior: essa oferta MAP é majoritariamente compacto desenhado para o investidor que saiu da mesa.

Mesa de negociação — Raio-X FipeZap (2013–2026, nacional)

Transações com desconto Transações de investidores (12m) Desconto médio (só com desconto) Desconto médio (todas)

Série completa, extraída dos rótulos dos gráficos da própria pesquisa (edição 2T26 — a Fipe re-amostra o acumulado 12m, então pontos antigos são revisados: dez/25 marcou 71% na leitura da época e foi revisado a 67%). A leitura de 13 anos: as transações com desconto rodam numa banda 53–70% — pisos na euforia (54% em 2014, 56% em mar/23) e tetos nas crises (70% em 2016 e 2019); hoje, 65%, acima da média de 64%. O desconto médio nas transações com desconto voltou a 14% — o teto histórico, visto só em 2016 e 2020. E o investidor: de 53% das compras em 2013 para mínima de 34% (2019), pico de 49% (jan/24, era dos compactos) e 40% hoje, abaixo da média de 43% — o comprador marginal de investimento está saindo da mesa exatamente quando a oferta de compactos é recorde. Combinação: mesa dura para vender estoque MAP, exatamente o que trava o caixa da Cyrela. Nota de leitura — este termômetro é, na prática, ex-MCMV: 68% dos respondentes têm renda acima de R$ 10 mil e 74% das compras são de usados, enquanto o MCMV (novo, na planta, preço ancorado no teto do programa, repasse pela Caixa) quase não transaciona com desconto — se ~25% da amostra fosse MCMV com incidência de 40%, a incidência ex-MCMV seria ~73%, o teto histórico em regime permanente. E como o FipeZap da aba Preços também é de anúncios MAP/usados, o preço efetivo de fechamento no MAP cai mais do que o índice sugere: anúncio em queda real + 9% de desconto médio na transação.

Lei 4.380/64 (SFH) · Lei 9.514/97 (SFI) · Res. CMN 4.676/18 · Lei 13.097/15 (LIG) · BCB/SGS · B3

Funding: as regras do jogo do crédito imobiliário

Quem financia o setor define quem constrói o quê. O sistema tem dois trilhos — SFH (regulado, funding subsidiado) e SFI (livre, funding de mercado) — e a poupança é a âncora histórica do primeiro. Ela está secando, e o cardápio que a substitui muda o preço de tudo.

Os dois trilhos: SFH × SFI

SFH (Lei 4.380/64)SFI (Lei 9.514/97)
Teto de taxa12% a.a. + TR (efetivo)Livre
Teto do imóvelR$ 2,25 milhõesSem teto
FundingPoupança SBPE + FGTSLCI, LIG, CRI, captações de mercado
FGTS do comprador (entrada/amortização)SimNão
Quota máxima de financiamento80% do valor, 90% no SAC (Res. 4.676, art. 6º; LTV agregado pela Res. 5.197, jul/25)Negociada
Para a CyrelaPlano empresário (dívida de produção a TR+~10,5%) e o repasse do cliente até o tetoAlto padrão acima de R$ 2,25 mi — taxa cheia; é o cap que ameaça o luxo paulistano no longo prazo

A regra-mãe: o direcionamento da poupança (SBPE)

De cada R$ 100 depositados na poupança dos bancos do SBPE:

65% crédito imobiliário obrigatório (≥80% em SFH) 20% compulsório 15% livre Remuneração ao poupador: TR + 0,5% a.m. quando a Selic > 8,5% (≈ TR + 6,2% a.a.) — o funding barato que ancora o teto de 12% do SFH.

A mágica e a maldição num só desenho: enquanto a poupança cresce, o SFH empresta abaixo do mercado; quando ela seca, a exigibilidade encolhe junto — e o crédito migra para funding a preço cheio. O novo modelo do BCB (Res. CMN 5.255 e Res. BCB 512, out/25; pleno em jan/2027) muda a régua em vez de dissolvê-la: o direcionamento sobe de 65% para 100% (80% em condições SFH), mas cada crédito novo conta pelo valor nominal × um fator de prazo (60/72/84 meses; 24 na produção) — a poupança financia o crédito só nesses anos e a carteira roda depois em LCI/LIG. O compulsório de 20% permanece, com dedução para crédito novo que começa em 5% e sobe 1,5 p.p. ao ano, sem teto escrito.

A âncora secando — poupança: saldo nominal × real (R$ bi)

Saldo real (R$ de hoje, deflacionado pelo IPCA) Saldo nominal

O saldo nominal está parado há seis anos (R$ 1,04 tri em dez/2020 → R$ 1,03 tri hoje) — em termos reais, −28% desde o pico. Com captação líquida negativa na maior parte dos anos desde 2015 (Abecip/BCB), o que segura o saldo é só o juro creditado. Cada real que sai daqui é um real de SFH a 12% que vira LCI a preço de mercado.

As fontes do funding — estoques (BCB, R$ bi)

Poupança SBPE LCI CRI LIG

A troca de guarda em números oficiais: a SBPE anda de lado desde 2020 (R$ 761 bi em mai/26) enquanto LCI quase quadruplicou (R$ 114 bi em 2014 → R$ 427 bi em fev/25), o CRI sextuplicou (41 → 241 bi) e a LIG saiu do zero para R$ 113 bi. O funding de mercado somado (LCI+CRI+LIG ≈ R$ 780 bi) já empatou com a poupança — só que custa CDI, não TR+6%. As séries de LCI/CRI/LIG são divulgadas com defasagem maior (último dado: fev/25).

O cálculo da exigibilidade — 65% da SBPE × aplicações computadas (R$ bi)

Aplicações imobiliárias computadas Exigibilidade (65% × saldo SBPE)

O termômetro do racionamento do SFH: em 2018 os bancos aplicavam 130% da exigibilidade — R$ 120 bi de folga voluntária, porque poupança era o funding mais barato disponível. A folga foi consumida em ondas (o vale de 2020 é mecânico: a poupança saltou 20% na pandemia e a carteira demorou a acompanhar) e hoje o sistema opera em ~99% — no fio da régua. Tradução: não existe mais SFH "espontâneo"; crédito novo a 12% depende de poupança crescer (não cresce) ou das muletas contábeis (FCVS, CRI computável). Os dois degraus da linha vinho são canetadas, não crédito sumindo: jan/2019 (Res. CMN 4.676 cortou o FCVS virtual e outras muletas computáveis, −R$ 70 bi num mês) e jan/2026 (nova limpeza de computáveis na transição do novo modelo, −R$ 54 bi). O deslize de 2023–25, esse sim, é real: carteira amortizando mais do que concede. É o pano de fundo quantitativo do novo modelo de 2027 — o direcionamento morre porque, na prática, já não sobra o que direcionar.

O cardápio que substitui a poupança

InstrumentoEstoqueCusto típico do fundingO que é
FGTSfundo parafiscalTR + ~3% a.a.O motor do MCMV — juro definido pelo Conselho Curador, imune à Selic; é por ele que o MCMV não sente o ciclo
Poupança SBPER$ 1,03 tri (total)≈ TR + 6,2% a.a.A âncora histórica do SFH — encolhendo 28% em termos reais desde 2020
LCIR$ 427 bi (fev/25, BCB; >R$ 500 bi em 2026 pela B3)~85–95% do CDI ≈ 13–14% a.a.Emissão bancária lastreada na carteira imobiliária; isenta de IR para PF (o subsídio que a viabiliza); prazo mínimo de 9–12 meses (CMN 2024)
LIGR$ 113 bi (fev/25, BCB)mercado (isenta p/ PF e estrangeiro)O covered bond brasileiro (Lei 13.097/15): dupla garantia — banco + carteira segregada em regime fiduciário; prazo ≥ 24 meses
CRIR$ 241 bi (fev/25, BCB; R$ 261 bi em mar/26)IPCA + 7–9%Securitização (trilho SFI): recebíveis imobiliários vendidos ao mercado de capitais; isento p/ PF; é onde a CashMe se financia

A escada de custo — FGTS ~4-5% < poupança ~7,7% < LCI/LIG ~13–14% < CRI IPCA+ — é a raiz da bifurcação que o resto do grupo Mercado mostra: o MCMV bebe do FGTS e não sente a Selic; o MAP perdeu a âncora barata e paga preço de mercado (taxa PF em 14,3%, máxima da série). Dois riscos regulatórios no radar de 2026: o governo quer rever a isenção dos títulos incentivados (LCI/CRI/LIG — encareceria o substituto da poupança bem no meio da transição) e os bancos disputam o desenho do teto de juros do novo modelo. Quando a Selic ceder, o caminho inverso é igualmente poderoso: funding de mercado barateando junto com a demanda destravando.

BCB (Estatísticas do Mercado Imobiliário + SGS) · FipeZap · PNADC/IBGE · premissas declaradas

Demanda e affordability

A demanda por imóvel é o encontro de quatro curvas: o custo do crédito, quanto o banco financia (LTV), o preço do imóvel e a renda de quem compra. Esta aba monta as quatro e fecha na régua única: quanto da renda média a primeira parcela consome. Em todos os gráficos, a linha cheia é a média móvel de 12 meses e o traço esmaecido ao fundo é a série mensal original.

O custo do crédito — taxa média de contratação (% a.a.)

SFH (pessoa física) Taxa livre (PF) FGTS (MCMV) PJ SFH (plano empresário)

O SFH saiu de 8,3% (2019) para 14,0% — colado no teto legal de 12%+TR: o racionamento por preço chegou ao limite. O FGTS conta a outra metade da bifurcação: subiu só de 6,1% para 9,1% — o MCMV atravessa o ciclo quase imune. E a linha pontilhada é o custo de produção da Cyrela (plano empresário): 8,0% → ~14%, o pedágio que aparece como juros capitalizados no COGS (aba REF).

Quanto o banco financia — LTV médio de contratação (%)

SFH FGTS (MCMV) Taxa livre

A disciplina que evita a bolha: o LTV do SFH está estável em ~66% há uma década — o banco não afrouxou a entrada para compensar o juro. A exceção é o FGTS em 73,7%, máxima da série: o MCMV esticando a alavancagem para caber demanda — o único ponto de atenção prudencial do sistema (com inadimplência FGTS de 2,1% vs 1,0% do SFH).

Preço do imóvel financiado × renda (índices, 100 = jan/2018)

Valor mediano de compra financiada (BR) Renda média nominal (PNADC derivada, média móvel 12m)

Surpresa construtiva: preço do imóvel financiado (+71% até abr/26) e renda nominal em MM12 (+73%) andaram empatados desde 2018 — o financiado mediano é MCMV-adjacente (R$ 280 mil BR, R$ 320 mil SP) e o teto do programa acompanhou a renda. O aperto de affordability atual vem do juro, não do preço. Nota: renda nominal derivada da série real do IBGE (recomposta pelo IPCA), pois a PNADC divulgada no SGS é re-deflacionada a preços de hoje.

Transação financiada × anúncio — SP (índices, 100 = jan/2014)

IGMI-R SP (transações com laudo de financiamento — SBPE-cêntrico) FipeZap SP (anúncios de venda)

A régua mais próxima de "SBPE puro" que existe publicamente — e ela conta a bifurcação em versão preço: desde 2014, o que transaciona com financiamento (IGMI-R: laudos de avaliação dos contratos, novo e compacto no mix) subiu +162%, enquanto o que está anunciado (FipeZap: usado, MAP) subiu +55% — as duas andavam coladas até 2020 e descolaram de vez no ciclo MCMV/compactos. Leia como cestas, não como prêmio: o produto que gira valorizou; o estoque anunciado, não. Leia junto com o compra÷avaliação logo abaixo — que volta ao ar com a quebra estrutural devidamente marcada.

Compra ÷ avaliação — quanto do laudo o comprador paga (%)

compra ÷ avaliação (mediana BR, FGTS + SBPE) jul/24–mar/25: mediana colada no teto MCMV — artefato, fora das médias

Três regimes, um corte. Até jun/24, a razão se comporta: o comprador paga em média 96,1% do laudo — desconto de mesa de ~4%. De jul/24 a mar/25 a série perde o sentido: a mediana de compra fica pregada em R$ 264–265 mil por nove meses seguidos — exatamente o teto do MCMV Faixa 2 — enquanto a avaliação mediana cai com a enxurrada de unidades baratas contratadas no boom; a razão passa de 100% (pico 107,5% em jan/25) e vira artefato de composição, não prêmio sobre laudo. O trecho está tracejado e excluído de qualquer média. De abr/25 em diante a mediana descola do teto e a série volta a fazer sentido — mas num degrau mais baixo: média de 95,6% desde então, 94,1% nos últimos seis meses. O desconto de mesa saiu de ~4% para ~6% do laudo — quase 2 p.p. a mais de poder de barganha do comprador, consistente com o mercado pós-boom mais frouxo. Ressalva de sempre: mediana mista FGTS+SBPE, sem recorte por modalidade.

A régua final — 1ª parcela (SAC) ÷ renda média nominal (%)

A conta, por extenso: 1ª parcela SAC = F/360 + F × im, onde F = 80% × preço do apto (60 m² × R$/m² médio FipeZap-SP), im = (1 + taxa média de aquisição PF do BCB)1/12 − 1, prazo de 360 meses. O índice divide essa parcela pela renda média nominal (PNADC recomposta pelo IPCA, média móvel de 12 meses). Exemplo em jun/26: apto R$ 723 mil → F = R$ 578 mil; taxa 14,3% a.a. → im = 1,12%; parcela = 1.606 + 6.475 = R$ 8.081 ÷ renda R$ 3.763 = 215%.

1ª parcela ÷ renda (%)

O ciclo inteiro do poder de compra (renda em MM12 para tirar o ruído da PNADC): o inferno era 2013–14 (até 361% da renda, juro de 17% com renda baixa), o paraíso foi 2019–21 (~162% — a razão do boom), e hoje estamos em 215% — o pior nível desde ~2017, um terço a mais de aperto que no vale de 2021. A régua é termômetro temporal (a renda média não é o comprador MAP), mas a direção vale para todas as faixas — e mostra a convexidade da tese: cada ponto de Selic a menos desce esta curva e destrava a fila recorde de intenção de compra (52%). No MCMV a régua não se aplica: juro FGTS de 9,1% e teto acompanhando a renda mantêm a conta em pé — a demanda bifurcou junto com o funding.

Dinâmica do crédito — o balanço do comprador (simulação)

Mesmo apto de R$ 723 mil (60 m² ao FipeZap-SP de jun/26), dois caminhos, premissas vigentes: taxa SFH de 14,0% a.a. (BCB, mai/26), SAC em 360 meses, INCC a 6,4% a.a. (ritmo atual) e valorização a mercado pela cesta de cada produto — novo/financiado a 8,3% a.a. (IGMI-R SP, média 2014–26) e usado a 3,5% a.a. (FipeZap SP). Na planta: 10% no ato, 20% em 36 mensais corrigidas pelo INCC, saldo financiado nas chaves. No usado: entrada de 34% — o LTV médio efetivamente praticado no SFH é 66%, não os 80% do teto — e financiamento no ato. Patrimônio = imóvel marcado a mercado − saldo devedor.

Caso 1 — compra na planta (SFH nas chaves)

imóvel a mercado saldo devedor (INCC na obra → SFH) patrimônio do comprador

A alavancagem da planta: o comprador entra com R$ 72 mil no ato (10%) e mensais de ~R$ 4,0 mil corrigidas pelo INCC — desembolso total até as chaves de R$ 232 mil, espalhado em 3 anos. Nas chaves ele deve R$ 610 mil (o saldo cresceu com o INCC) sobre um imóvel que já vale R$ 918 mil — LTV de 66%, exatamente o que os bancos praticam; a parcela SAC nasce em ~R$ 8,4 mil. Como o ativo roda a 8,3% e o saldo corrige a 6,4% (e depois amortiza), o patrimônio decola: R$ 308 mil nas chaves e R$ 1.132 mil no ano 10 — 4,9× o que saiu do bolso até as chaves. É o carrego da incorporação transferido ao cliente: alavancado no ativo que mais valoriza, pagando correção menor que a valorização.

Caso 2 — compra de um usado (SFH no ato)

imóvel a mercado saldo devedor (SAC 360m) patrimônio do comprador

No usado, o cheque é no dia 0: R$ 246 mil de entrada (34%) — quase 3,4× o ato da planta — e a parcela SAC já nasce em R$ 6,6 mil. O patrimônio parte de R$ 246 mil e cresce quase só pela amortização: com a cesta do usado rodando a 3,5% a.a., chega a R$ 704 mil no ano 10 — contra R$ 1.132 mil da planta. A diferença é quase toda a valorização da cesta (novo 8,3% × usado 3,5%), a mesma bifurcação do gráfico IGMI-R × FipeZap acima — é simulação com médias históricas, não promessa: se a bifurcação fechar, os dois casos convergem. O que não é hipótese: a barreira de entrada — juro a 14% com LTV de ~66% exige ter um terço do imóvel à vista. O índice acima não tem leitura no nível — ninguém de renda média compra esse apto em nenhum ponto da série —, só na variação: +33% desde 2021, o pior desde 2017.

O fluxo de caixa dos dois caminhos — saída mensal (R$ mil/mês)

planta (obra corrigida pelo INCC → SAC nas chaves) usado (SAC desde o dia 0)

Desembolso acumulado — quanto já saiu do bolso (R$ mil)

planta (acumulado, com o ato) usado (acumulado, com a entrada)

O desenho dos fluxos é o argumento comercial da incorporação: na planta, o comprador paga R$ 72 mil no ato e depois mensais suaves de R$ 4,0 → R$ 4,8 mil (o INCC vai corrigindo); o choque vem nas chaves, quando a parcela quase dobra para R$ 8,4 mil e cai devagar (SAC). No usado, o choque é todo no dia 0 — R$ 246 mil à vista — e a parcela nasce em R$ 6,6 mil. No acumulado, o usado fica na frente o tempo inteiro: já desembolsou R$ 473 mil quando a planta chega às chaves com R$ 232 mil, e fecha o ano 10 em R$ 930 mil contra R$ 871 mil — a planta desembolsa R$ 58 mil a menos no horizonte inteiro e, pela simulação acima, ainda termina com patrimônio maior. O preço disso não está no caixa: é a parcela pós-chaves mais pesada, o risco de INCC alto na obra e o risco de execução da entrega — o comprador da planta é, de fato, sócio do ciclo.

TJ-SP · 26/08/2026 · art. 8º da Lei 18.177/2024 · novo na v5.3

Risco de zoneamento — São Paulo

Em 26/08/2026 o Órgão Especial do TJ-SP (25 desembargadores, unânime) declarou inconstitucional o art. 8º da Lei 18.177/2024 — a "revisão da revisão" do zoneamento paulistano, de julho/2024. O vício foi de rito, não de mérito: um projeto vendido como "ajustes finos" voltou da Câmara com 38–40 emendas que ampliaram verticalização sem passar por audiência pública ("desvirtuamento do objeto"). Volta a valer o mapa da Lei 18.081, de janeiro/2024.

O que caiu × o que ficou de pé

Camada regulatóriaStatusO que representa
PDE revisado (Lei 17.975/2023) + Lei 18.081/jan-2024VigenteA grande ampliação de eixos (ZEU) perto de metrô e corredores — potencial estimado em até +148% de área de eixos (Insper). É a base da tese de adensamento.
Arts. 1º–2º da 18.177/jul-2024VigentesFlexibilizações de elegibilidade a eixo: fim da trava de declividade >30%, eixo em planície aluvial mediante requisito construtivo (Moema, Água Branca, Chácara Santo Antônio, Paraíso).
Art. 8º da 18.177 (o MAPA de julho)Anulado~15 áreas alteradas por emenda, ~220 mil m² de zonas de casas (0,5% das ZERs) convertidos: Cidade Jardim/Jockey (ZER→ZEM sem limite de altura, 178 mil m²), Vila Nova Conceição, rua Caetés (Perdizes), quadra Madre Cabrini (Vila Mariana), ZEUP no Brás e Brooklin, Alto de Pinheiros, Butantã, Vila Sônia.
Modulação de efeitosProtegeAlvarás e protocolos feitos desde jul/2024 ficam preservados. O risco vivo é terreno escriturado e ainda não protocolado em perímetro de julho.

A lei anulada era radical em onde (torres sem limite de altura dentro de bairros-jardim — 19 torres de 28–37 andares protocoladas só na Cidade Jardim), não em extensão. A cidade "verticalizável" de hoje é, em ~95%, a do mapa de janeiro — que segue valendo. E o buraco deve ser longo: 2026–28 é calendário eleitoral contínuo; a correção tende a esperar a revisão do PDE em 2029.

A Cyrela na janela da lei anulada — compras de terreno por trimestre

VGV potencial escriturado por trimestre (prosa dos releases; escritura ≠ contrato — o registro vem meses depois da assinatura). Não é desembolso: a companhia não divulga o preço pago por terreno.

TriTerrenos (cidade de SP)VGV potencialLandbank SP (fim do tri)
1T242 (2 SP)R$ 0,35 biR$ 3,9 bi
2T249 (5 SP)R$ 2,4 biR$ 4,1 bi
3T24 — lei em vigor14 (8 SP)R$ 5,6 biR$ 5,8 bi
4T2415 (12 SP)R$ 7,2 biR$ 10,3 bi
1T256 (todos SP)R$ 1,9 biR$ 9,9 bi
2T259 (todos SP)R$ 4,0 biR$ 11,7 bi
3T257 (todos SP)R$ 1,7 biR$ 10,6 bi
4T2513 (12 SP)R$ 5,3 biR$ 12,2 bi
1T26 — liminar congela alvarás (fev)3 (2 SP)R$ 0,7 biR$ 11,0 bi
2T26 — pivô para o RJ10 (4 SP, 6 RJ)R$ 2,3 biR$ 9,8 bi

O landbank SP triplicou (3,9 → 12,2 bi) na vigência da lei anulada — 60 terrenos escriturados na capital em oito trimestres. Mas a cronologia de 2026 sugere gestão ativa do risco: as compras desabam para R$ 0,7 bi exatamente no trimestre da liminar que congelou alvarás na cidade (fev/26, derrubada no STF em abril, ameaça estimada pela Abrainc em R$ 90 bi de VGV), e no 2T26 a alocação migra para o Rio (6 dos 10 terrenos).

Quanto custou? O que dá para triangular

A companhia divulga VGV potencial e a forma de aquisição do landbank (46% permuta / 54% caixa no 2T26) — nunca o preço. O desembolso aparece indiretamente no balanço:

estoque de terrenos a custo: R$ 1,95 bi (2T24) → pico de R$ 4,14 bi (3T25) → 3,22 bi (2T26) terrenos a pagar: compra migrou para a prazo — obrigação subiu ~R$ 0,9 bi no ciclo permuta caiu de 55% para ~41% do valor do terreno em 2025 (mais caixa/prazo, menos troca)

Ordem de grandeza: terreno custa ~10–15% do VGV no MAP paulistano — os R$ 28,7 bi de VGV escriturados desde 3T24 (SP majoritário) implicam ~R$ 2,5–3,5 bi de custo de terra, coerente com o crescimento do estoque a custo (+2,2 bi até o pico) somado ao que já saiu para obra e ao pago em permuta.

Leitura para a tese

1 · A máquina Vivaz não depende da lei anulada. Os lançamentos colados em estação (Estação Lapa, Pirituba, Sacomã, Tamanduateí ×3, Giovanni Gronchi, Connection Paulista/Klabin/Mooca) são a tese de eixo do mapa de janeiro — que ficou de pé. A margem bruta MCMV subindo de ~27% para 36–37% (nota de segmentos, série no modelo) é o retrato dessa engenharia: terreno junto a transporte, CA 4, outorga favorecida.

2 · A exposição residual é no alto padrão. Vista Venezia (4T24, R$ 1,79 bi) e Vista Milano (1T25, R$ 1,47 bi) ficam na região Jockey/Marginal Pinheiros, epicentro da polêmica — mas lançadas, logo protocoladas e protegidas pela modulação. O que não se enxerga por fonte pública: terreno escriturado em perímetro de julho ainda sem protocolo.

3 · O efeito líquido pode ser pró-Cyrela: com os próprios protocolos protegidos e menos potencial construtivo novo para competidores até ~2029, a barreira de entrada sobe num MAP paulistano que já opera com 12,9 meses de estoque.

Pautas para o call do 3T26: quanto do landbank SP de R$ 9,8 bi está protocolado; existe terreno em perímetro exclusivo do mapa de julho; a discussão da Marginal tocou a viabilidade dos Vista.

Fontes: acórdão TJ-SP (ADI, Órgão Especial, 26/08/2026) · Lei 18.177/2024 e Lei 18.081/2024 (legislacao.prefeitura.sp.gov.br) · Folha/Abecip (levantamento dos seis distritos) · Migalhas · LabCidade/FAU-USP · CNN Brasil (Abrainc, R$ 90 bi) · releases Cyrela 1T24–2T26 (seção Banco de Terrenos e anexos de lançamentos) · ITR 2T26.

Planilha de dados operacionais do RI · estoque a valor de mercado %CBR ÷ vendas %CBR (com permuta) · trimestral

Estoque da Cyrela — meses de venda por segmento

Para cada trimestre, o estoque a valor de mercado (%CBR) dividido pela venda mensal média dos 4 trimestres anteriores — quantos meses levaria para zerar o estoque no ritmo corrente. Série de 14 anos, por segmento.

Alto Padrão Médio MCMV (Vivaz)

O ciclo inteiro numa imagem: na ressaca de 2015–18 o Alto Padrão chegou a 41,5 meses de estoque (1T18) e o Médio a 37,6 — o vale que forjou a disciplina atual da casa. O boom pós-pandemia limpou tudo (mínimas de ~11 e ~7 meses em 2021–22). De lá para cá, a subida é contínua: Alto em 20,2 meses no 2T26 (13,8 há um ano), Médio em 16,9 — metade do pesadelo de 2018, mas o dobro do conforto de 2021 e acima das réguas de mercado da aba Liquidez. A Vivaz vive outro ciclo: 8,7 meses, na banda saudável em que opera desde 2022. Ressalvas: o estoque é a valor de mercado e inclui lançamentos recém-saídos (2025 foi recorde em AP — parte da alta é pipeline novo, não encalhe), e a base é R$, que o ticket alto do AP infla; a comparação boa é da série com ela mesma.

FR 2026 (seções 1.13, 6, 7, 8) · FRE/CVM dados abertos 2010–2026 · DFP

Governança: dono no comando, bônus de sócio

Capital: 384,0 mi ON + 69,4 mi PN (CYRE4) = 453,4 mi ações. Bloco Elie Horn ~28,6% (PF 20,9% + Eirenor/Uruguai 5,7% + EH Capital/BVI 2,0%), sem acordo de acionistas (seção 1.13 vazia) — controle familiar puro, congelado desde 2021. Free float 67,2% (73,7 mil CPFs); tesouraria 17,7 mi ON (4,6% das ordinárias). Institucionais: BlackRock 5,6%, Invesco 5,0% das ON — e Absolute (10,6%) e SPX (5,2%) concentradas nas PN, provável arbitragem do resgate da CYRE4 que o CFO admitiu estudar no call do 2T26.

Composição societária — evolução (FRE 2010–2026, % do capital total)

Bloco Elie Horn Tesouraria

Três capítulos: o bloco Horn rodou ~30–32% até 2018, caiu a 25,5% em 2019–20 (as doações filantrópicas do Elie — ele prometeu doar a maior parte da fortuna) e voltou a 28,6% sem comprar uma ação: recompras e cancelamentos fazem o controle crescer passivamente (tesouraria chegou a 6,2% em 2023). No passageiro da história institucional: Carmignac (2010) → Tarpon (2011–13) → Oppenheimer/Orbis (2014–16) → Dynamo com ~10% por quase uma década (2014–21) → BlackRock/Invesco hoje, com as gestoras locais migrando para as PN. Passe o mouse: o maior institucional de cada ano está no tooltip.

O desenho do bônus (FR, seção 8.1) — a cláusula que vale o dossiê

A variável da diretoria é apurada sobre "apenas o resultado dos projetos entregues até aquele exercício", e só sobre "o valor que exceder o custo de capital estipulado pela Companhia". Esse lucro econômico forma um pool de curto e longo prazo: parte paga no ano, parte "retida para pagamento de forma diferida por aproximadamente 5 anos, quando os terrenos comprados naquele mesmo exercício forem entregues". E zero remuneração em ações — nenhuma opção ou ação restrita em 17 anos de FRE.

É bônus de sócio, não de executivo: (1) paga sobre obra entregue, não sobre PoC — ninguém enche o bolso lançando muito e reconhecendo catch-up; (2) exige retorno acima do custo de capital — margem sem ROE não paga; (3) o diferimento casa o bônus de hoje com a safra de terrenos comprada hoje — quem compra terreno ruim devolve no futuro. É a versão contratual do "Conselho chato que nos remunera pelo ROE". O custo total (~R$ 34 mi, ~1,7% do lucro) é modesto; o alinhamento verdadeiro está na propriedade: o CEO é filho do controlador e a família tem ~R$ 3 bi em ações — ~90× a remuneração anual de toda a administração.

A prova de que o mecanismo funciona — remuneração da diretoria × lucro (2009–2026)

Remuneração total da diretoria (R$ mi) Lucro líquido do ano (R$ mi, fundo — escala própria)

O bônus respira com o ciclo de entregas, não com o lucro do ano: pico de R$ 29 mi em 2013 (entregas do superciclo 2010–11), colapso para R$ 5,7–8,8 mi em 2015–20 (projetos entregues sem lucro econômico acima do custo de capital — o pool secou por seis anos), retomada a R$ 20–35 mi com as safras lucrativas pós-2021. Uma diretoria que aceitou seis anos de bônus perto de zero e não foi embora é o teste de estresse que nenhuma política escrita substitui. Nota: 2026 = previsto no FR; lucro de 2026 = 1S.

Remuneração por diretor — mínima, média e máxima (R$ mi/ano)

Média por diretor Faixa mín–máx

O topo da tabela respira 8× com o ciclo: o diretor mais bem pago levou R$ 11,6 mi em 2013 (entregas do superciclo), R$ 1,4 mi em 2019 (pool seco) e R$ 10,2 mi em 2025. O espalhamento máx/mín de ~6× dentro de uma diretoria de 6 é meritocracia interna real — não é rateio igualitário. Média 2025: R$ 4,6 mi/diretor. Nomes individuais não são públicos (a CVM exige só mín/média/máx).

Diretoria — quebra da remuneração (R$ mi)

Fixa (salário) Benefícios Variável

A linha azul é a assinatura da casa: o fixo dos 6 diretores está nominalmente parado há 15 anos (R$ 2,5–4,7 mi → R$ 3,0 mi em 2025 — em termos reais, caiu mais da metade). Toda a expansão do pacote veio do variável (R$ 21 mi) e de benefícios. Alavancagem de ~7× fixo→variável: um pacote de sócio de partnership, não de executivo de corporação.

Variável da diretoria — pago × orçado (R$ mi)

Orçado na proposta do ano Pago (reportado no FRE seguinte)

Desde 2017, o pago fica entre 81% e 105% do orçado (média ~93%) — e nos três últimos anos, consistentemente abaixo (89% / 83% / 81%): o orçamento não é âncora inflada para legitimar pagamento. Os desvios grandes são antigos: 41% em 2010 e 135% em 2015. Para 2026 estão orçados R$ 26,3 mi. Alguns anos (2012–14, 2017) ficam fora do gráfico porque a proposta da época não itemizava o variável.

O Conselho — mínima, média e máxima por conselheiro (R$ mi/ano)

Média por conselheiro Faixa mín–máx

O conselheiro médio custa R$ 630 mil/ano (2025), 100% fixo + benefícios — zero variável, zero ações: o CA que aprova o bônus da diretoria não tem incentivo a inflá-lo. O máximo (na prática, a presidência — Elie Horn, no cargo desde 1993) saltou de ~R$ 0,7 mi para R$ 2,8–3,4 mi entre 2016–20, logo depois de Elie deixar o executivo (2014) e virar chairman dedicado; hoje R$ 2,1 mi. O órgão inteiro custa R$ 6,2 mi (~0,3% do lucro), e os membros detêm 875 mil ações fora do bloco de controle (8.13) — o alinhamento do conselho é reputacional e familiar, não financeiro.

Comitês do Conselho (FR 7.4)

ComitêMembrosNota
Auditoria (estatutário, Res. CVM 23/21)Afonso Bevilaqua, Marcela Drigo, Rafaella Corti, Rosangela dos SantosBevilaqua: ex-diretor executivo do FMI e ex-BC
Estratégia e FinançasBevilaqua (coord.), Sérgio Rial, João Tourinho, Ricardo Sales; Miguel Mickelberg secretárioRial no comitê que desafia a alocação de capital
Pessoas e SustentabilidadeRogério Melzi (coord.), Celso Alves, Rafael NovellinoPropõe a política de remuneração ao CA

Membros de comitê recebem só remuneração fixa (sem variável, sem benefícios) e o Conselho inteiro não tem bônus — independência barata de verificar. O risco simétrico do modelo é o de todo controle familiar sem acordo: sucessão e partes relacionadas dependem da família; os mitigantes são estes comitês com independentes de peso e o histórico de 20 anos de tratamento ao minoritário.

14 teleconferências lidas na íntegra · 1T23–2T26 · transcrições oficiais

O que a gestão disse — e o que entregou

A Cyrela não dá guidance formal ("a Companhia é Companhia de donos"), mas os calls estão cheios de quase-guidance verificável: range de margem, faixa de geração de caixa, trajetória de usinagem. Esta aba confronta o dito com o entregue — e registra a cultura que explica os dois.

Cultura: as regras da casa, nas palavras deles

"Nós não somos estratégicos, nós somos compradores de terreno."Raphael Horn · 2T23
"ROE para nós é muito importante, volume não é. [...] Temos a verba [de terrenos], essa verba é sagrada."Raphael Horn · 3T24
"Nosso Conselho é chato e nos remunera pelo nosso ROE. Não adianta ficarmos crescendo para crescer."Raphael Horn · 4T25
"A Cyrela está confiante com a sua grade, não com o mercado. Não estamos bullish no setor, estamos bullish no nosso produto."Raphael Horn · 2T24
"Se nós vamos dar guidance de ROE mais que 20, é o dia que eu não estiver aqui. [...] Você tem que sonhar 20 para entregar 15, mas 20 era sonho."Raphael Horn · 4T24
"Na nossa indústria nós começamos o jogo do zero toda vez. Lança um projeto, vende, ótimo. Nenhuma garantia nos próximos."Miguel Mickelberg · 1T24
"No nosso setor uma coisa é a foto e outra é o filme. Quando você acelera a compra de terreno e a venda não corresponde, a dívida líquida sobe rapidinho."Miguel Mickelberg · 4T24
"Quando começa o oba-oba, nem é muito bom, porque aí vira guerra de preço, guerra de compra de terreno."Raphael Horn · 2T23

Tradução operacional: alocação 100% bottom-up (terreno a terreno, sem meta de mix ou volume), capital racionado por ROE com verba fixa de terrenos, e anti-euforia deliberada como traço cultural — consistente nos 14 calls, sem exceção. O tom nunca acompanha o ciclo: nos recordes de 2024–25, a mensagem era "estamos sempre dormindo mal".

Placar do guidance — geração de caixa recorrente (R$ mi)

faixa guiada no início do ano entregue (recorrente, ex-venda de ações de JVs)

Três anos de credibilidade e um tropeço admitido: 2023 queimou menos que o guiado; 2024 entregou dentro da faixa (+R$ 53 mi recorrente; +R$ 259 mi com a venda de ações da Cury); 2025 falhou — guiou +300–500 e queimou R$ 190 mi recorrentes (o +R$ 65 mi reportado só existe pelos R$ 251 mi da Cury), com mea culpa raro no 3T25: "nós acabamos errando... foi a primeira vez em muito tempo" (Miguel). A causa, repetida em três calls: venda de estoque pronto abaixo do plano. 2026 guiado em 0–200 e correndo acima (~R$ 230 mi recorrentes no 1S).

Placar do guidance — margem, receita e Vivaz

O que foi ditoQuandoO que aconteceu
Margem bruta normalizada em 32–34%desde 3T23Todas as safras de lançamento 2021–25 dentro do range; reportada saiu de 30,7% (1T23) para 34,4% (2T26) ✓
"Vejo pouco espaço para crescimento da margem sobre o patamar atual" (~34%)2T26Teto declarado — mas sustentado pelo mix: Vivaz é 20% da receita e ~40% das vendas do 1S26; o receitamento dela ainda cresce
Melhora da margem Vivaz (rodava a 28–29%)3T23Cumprido: 4T25 ~36%, ano 34,5%; safras 2024–25 acima de 36% ✓
Usinagem (receita de obra): R$ 4 bi → R$ 5 bi → R$ 5,5–6 bi4T252024 e 2025 confirmados; 2026 é o guidance vivo — a régua mais objetiva de receita que a companhia já deu
"O nosso ROE é para cima — ou sobe, ou pagamos mais dividendo"4T23 (ROE 13,1%)Entregou os dois: ROE 20,9% (2024) e 22,3% (2025) + R$ 1,4 bi de dividendos em 2025, incluindo extraordinário de R$ 1 bi ✓
Safra de entrega saudável: 2026 88% vendida / 59% paga; 2027 90% / 38%2T26Risco de distrato contido nas duas próximas safras de entrega

Perspectivas — o que a gestão enxerga daqui pra frente

Receita: as "três caixinhas" do CFO (usinagem + vendas de unidades + reconhecimentos iniciais) apontam crescimento carregado pela usinagem (+R$ 0,5–1 bi em 2026) e pelo gap acumulado de ~R$ 3 bi entre vendas-consolidação e receita de 2024–25; receita a apropriar de R$ 12,2 bi. Margem: platô de ~34%, com o mix Vivaz como último vetor de alta. Hedge INCC: recebíveis corrigidos a INCC de R$ 10,8 bi contra custo a incorrer de R$ 8,2 bi — overhedge de ~R$ 2,6 bi: INCC alto ajuda o resultado no curto prazo (2021, de INCC explosivo, foi a maior margem em 10–15 anos). Ciclo: obra da marca Cyrela alongou de ~36 para ~48 meses (prédios mais altos, uso misto); Vivaz em 30–36.

Capital: com o caixa forte e a eventual venda de ativos à TRX (MoU de R$ 2,14 bi — sob risco: o TRXF11 cancelou a compra do Pátio Malzoni em 27/08/26 e a 13ª emissão não cita os ativos da Cyrela), a gestão listou dividendo, recompra e — inédito — possível resgate das ações preferenciais. JVs: saiu dos conselhos das três listadas em 2026 (Cury em março; Lavvi e P&P em agosto), com a Cury em 15,08% — o limiar do acordo de acionistas. Riscos que a própria gestão assume: VSO 12m caiu de 55% para 42,8% ("já foi padrão Suíça"); novo modelo de crédito com SFH capado em 80% para imóveis até R$ 2,25 mi ameaça o alto padrão paulistano no longo prazo; reforma tributária pesa contra média/alta renda (obrigação de NF em dez/26; adesão nos lançamentos de 2029).

A síntese de 14 calls em uma linha: gestão que promete pouco, numera o que promete, entrega quase sempre — e quando erra (caixa 2025), diz "erramos" no call seguinte. O risco não está na execução; está nos vetores exógenos que eles mesmos listam: juro longo, funding imobiliário e tributação.

Fontes: RI da Cyrela (planilhas, releases, Formulário de Referência), CVM (dados abertos, DFP) e atas; transcrições oficiais das teleconferências 1T23–2T26; releases oficiais dos pares.